Excelente o editorial de hoje do Valor Econômico, onde se aborda o futuro do regime de metas de inflação no Brasil. Um ponto importante ressaltado pelo editorial – em consonância com a posição defendida por mim e pelo Luiz Fernando de Paula em 06/02/2009. Ver https://jlcoreiro.wordpress.com/2009/02/06/artigo-no-valor-economico-de-hoje-2/) é que o aprefeiçoamento do regime de metas de inflação não passa pela inclusão dos preços dos ativos financeiros na “regra de política monetária do BCB. Se a taxa de juros também for usada para controlar “bolhas especulativas”, o resultado provável será um equilíbrio ruim no qual a taxa de juros não é alta o suficiente para impedir o surgimento das bolhas e nem baixa o suficiente para permitir um crescimento robusto do nível de produção e de emprego. Ou seja, seria o triunfo definitivo do rentismo.

O Brasil não dispoe ainda da maturidade institucional necessária para conduzir a sua política monetária de forma discricionária como faz o FED. A existência de um arcabouço de “constrained discretion” como o Regime de Metas de Inflação é ainda necessária para a manutenção da estabilidade de preços. No entanto, o RMI brasileiro pode e deve ser flexibilizado. Algumas propostas nesse sentido serão apresentadas no livro “Política Monetária, Bancos Centrais e Metas de Inflação: teoria e experiência brasileira” organizado por mim, pelo Luiz Fernando de Paula e pelo Rogério Sobreira, com data prevista de lançamento para a segunda semana de junho.

Boa leitura a todos,

JLO

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O sucesso e o futuro do regime de metas de inflação Editorial 19/05/2009 Indique | Imprimir | Digg | del.icio.us Tamanho da Fonte: a- A+

O regime de metas de inflação foi fundamental para consolidar a estabilidade de preços no país. Dez anos depois de implantado, pode-se dizer que ele funciona bem, se acoplado a outras duas condições importantes para seu sucesso no Brasil – câmbio flutuante e superávits primários nas contas públicas. O sistema foi duramente posto à prova desde o início. Um de seus testes vitais foi vencer a batalha de credibilidade, em que o Banco Central foi capaz de se isolar das pressões políticas e dos interesses imediatistas do governo para perseguir seriamente as metas definidas. O BC soube preservar sua autonomia operacional, ainda que contrariando as posições do núcleo do governo petista. A negociação entre visões distintas serviu para aperfeiçoar o regime. Na fixação da meta e do intervalo de tolerância para 2008 e 2009, com dois anos de antecedência, o conservadorismo do BC foi compensado pela flexibilidade da Fazenda e Planejamento, e o resultado foi o correto. A meta para esses anos foi fixada em 4,5% por decisão colegiada do CMN. Uma meta inferior, como defendia o BC teriam obrigado a autoridade monetária a um aumento ainda maior dos juros para combater as fortes pressões inflacionárias de 2008. Uma meta menor teria abortado a fase de crescimento de 5% anuais que o país finalmente conseguiu atingir. Consolidado após uma década, o sistema de metas no Brasil não é perfeito e mudanças possíveis no futuro precisam ser feitas para reduzir o custo dos ajustes monetários. A crise econômica global trouxe à tona propostas de mudanças de alta complexidade, para as quais não há um consenso satisfatório. No caso brasileiro, não se precisa ir tão longe, e ajustes pontuais dariam conta do recado. Um tema antigo que voltou com força é o da relação entre política monetária e bolha dos ativos. Uma corrente de economistas defende que o instrumento dos juros possa ser usado para acabar com “exuberâncias irracionais” dos mercados de imóveis ou ações, ainda que outros setores da economia não estejam aquecidos. Há sérios inconvenientes nesta prescrição. Ela amplia o custo do ajuste a setores saudáveis da economia, que pagariam pelas estripulias em mercados especulativos, com a redução do nível geral do emprego e da atividade produtiva. Se isto não fosse pouco, há enorme dificuldade de se identificar os estágios iniciais de uma inflação de ativos. Um dos aspectos mais angustiantes para os BCs até agora tem sido o fato de que a percepção de que uma bolha se formou só tenha se dado quando ela já estava prestes a estourar. Reguladores e BCs caminham para um consenso e uma solução mais simples. As bolhas dos ativos têm de estar nos radares das autoridades monetárias, mas devem ser combatidas com medidas prudenciais, como limite a posições especulativas e risco de fundos de hedge, maior exigência de capital das instituições financeiras em tempos de bonança, criação de “clearing” para os contratos de derivativos, que assim podem ser contabilizados, padronizados – logo controlados – etc. Uma estreita vigilância seria permanentemente incorporada ao arsenal de BCs e reguladores, em vez da lassidão geral dos controles que marcou a era da “autorregulação” e que culminou em uma catástrofe econômica. No Brasil, a maior parte dos problemas que levaram à atual crise não existem e o sistema bancário permanece sólido, apesar das turbulências. O sistema de metas poderia se livrar do calendário gregoriano, que obriga o BC a calibrar mais para cima os juros para atingir o alvo até dezembro de um exercício, quando a carga poderia ser menor em espaço maior de tempo para o cumprimento da meta, como acontece no Reino Unido, por exemplo. O uso do núcleo da inflação tem vantagens sobre o índice cheio, por expurgar fatores excepcionais, mas elas não são absolutas e boa parte dos BCs preferem a segunda opção. A boa margem de tolerância de dois pontos percentuais no Brasil traz compensação à “imprecisão” do IPCA cheio. Há outros aperfeiçoamentos possíveis, mas eles não prosperam porque a discussão só deverá prosperar quando os juros estiverem baixos o suficiente para sancioná-la. Até agora o BC tem jogado duro em um governo que politicamente tolera mais inflação. Para preservar as conquistas, é melhor não tocar no assunto. Com o tempo, isto precisa mudar.

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