Vejam em http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/05/09/economia/a_economia_brasileira_vai_encolher_em_.aspA economia brasileira vai encolher em 2009

José Luis Oreiro

ECONOMISTA

Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou suas projeções para o crescimento da economia mundial. Segundo os analistas do FMI, a economia mundial sofrerá contração de 1,3% em 2009, sendo que as economias avançadas deverão apresentar uma queda de 3,8% do PIB este ano. Para a América Latina, o FMI prevê contração de 1,5% do PIB em 2009. Para o Brasil a queda do PIB está estimada em 1,3%.

Essas previsões contrastam fortemente com o cenário relativamente otimista que ainda prevalece entre os membros da equipe econômica do governo. A projeção do Ministério da Fazenda é de um crescimento de 2% para o PIB em 2009. O Banco Central do Brasil é um pouco menos otimista, mas projeta um crescimento superior a 1% para a economia brasileira no ano corrente. Mesmo entre economistas fora do governo há um certo clima de que o “pior já passou”, de tal forma que um cenário de crescimento negativo do PIB em 2009 poderia ser descartado.

O relativo otimismo prevalecente entre os economistas brasileiros a respeito do desempenho da economia brasileira em 2009 baseia-se no pressuposto de que os resultados negativos observados no ultimo trimestre de 2008 (queda de 3,6% do PIB) devem-se a um descompasso entre os ritmos de contração da produção industrial e da demanda por bens manufaturados. A “evaporação do crédito” observada após a falência do Lehman Brothers teria originado o colapso da produção industrial, em função da escassez de capital de giro para as empresas, mas teria tido efeitos relativamente modestos sobre a demanda por produtos manufaturados, mesmo levando em conta a redução da demanda externa pela produção da indústria. Dessa forma, a produção industrial se reduziu a um ritmo mais forte do que a demanda, fazendo com que o nível de estoques começasse a se reduzir. No entanto, os dados divulgados no primeiro trimestre de 2009 já sinalizariam o final do processo de ajustamento de estoques, apontando assim para uma retomada da produção industrial no segundo trimestre do corrente ano.

Esse raciocínio é apenas parcialmente correto. De fato, a queda da produção industrial verificada no ultimo trimestre de 2008 se deve fundamentalmente aos efeitos da “evaporação do crédito” e não a uma queda da demanda externa por produtos manufaturados em razão da recessão mundial. Entre setembro e dezembro de 2008, enquanto a produção de bens de capital e de bens de consumo duráveis se reduziu 33% e 49%, respectivamente, as exportações de bens manufaturados se contraíram “apenas” 22%. Esses dados apontam, portanto, para um ritmo maior de queda da produção do que da demanda. No entanto, a demanda externa por produtos manufaturados apresentou uma forte queda entre janeiro e fevereiro de 2009, reflexo da recessão mundial. Mais especificamente, as exportações de manufaturados caíram 50% em fevereiro de 2009 em comparação com setembro do ano anterior. Daqui se segue que a demanda por produtos manufaturados deverá prosseguir em queda ao longo de todo o primeiro semestre de 2009, tornando assim pouco provável a ocorrência de uma recuperação duradoura do nível de atividade na indústria após o término do “ciclo de estoques”.

Essa análise é corroborada por um estudo recente divulgado pelo Ipea, segundo o qual, em função da queda das exportações de manufaturados devida à crise mundial, a produção industrial deverá cair 4,5% em 2009 na comparação com 2008.

De que forma as projeções de queda da produção industrial podem ajudar a prever o comportamento do PIB brasileiro para o ano corrente?

Um fato estilizado sobre a dinâmica das economias capitalistas no longo-prazo é que o crescimento da produção industrial é uma variável de fundamental importância para “prever” o comportamento do PIB. Isso decorre do fato de que, entre todos os setores de atividade econômica, a indústria é aquele setor que apresenta retornos crescentes de escala, ou seja, aquele no qual a produtividade por homem/hora-trabalho tende a aumentar com o aumento da quantidade produzida.

Os dados da economia brasileira entre 1991 e 2008 mostram que cada ponto percentual de variação da produção industrial gera 0,22 ponto percentual de variação do PIB. Nesse contexto, uma contração estimada da produção industrial de 4,5 pontos percentuais deverá resultar numa contração de 0,99 p.p. no PIB. Este número é bastante próximo das previsões do FMI para o desempenho da economia brasileira em 2009. Dessa forma, o comportamento previsto para a produção da indústria deixa pouco espaço para o otimismo. Infelizmente o ano de 2009 será muito ruim para a economia brasileira. Cabe ao governo tomar as medidas necessárias para amenizar esse quadro.

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