Luiz Carlos Bresser-Pereira Folha de S.Paulo, 4.5.2009.

A crise do neoliberalismo é muito mais grave do que a desaceleração que, nos anos 70, facilitou o assalto neoliberal Em 2008 , antes do “outubro negro”, escrevi nesta coluna (21/ 4) que a onda neoliberal havia chegado ao fim. Agora, Gideon Rachman ganhou a manchete do “Financial Times” (28/4) afirmando que “terminou a era Thatcher, tudo a que a dama de ferro se opôs está de volta”. De fato, o governo de Margaret Thatcher no Reino Unido, eleito em maio de 1979, 18 meses antes de Ronald Reagan nos Estados Unidos, marcou o início da “experiência neoliberal”. Durante 30 anos, o mundo copiou suas políticas: “privatização, desregulação, redução de impostos, abolição dos controles de câmbio, assalto ao poder dos sindicatos, a celebração da criação de riqueza em vez da distribuição de riqueza”. Engana-se, entretanto, Rachman quanto ao final da sua frase. A criação de riqueza foi antes de riqueza fictícia, não da riqueza real. A experiência neoliberal fracassou sob todos os ângulos: as taxas de crescimento econômico diminuíram, a renda concentrou-se em toda parte, a instabilidade econômica aumentou, e agora essa experiência termina de forma inglória com a crise global. A tese de que as políticas neoliberais tornavam os países mais competitivos, porque ao diminuírem os salários os faria mais dinâmicos, não se confirmou. Os dois grandes países que as adotaram no limite foram a Rússia de Mikhail Gorbatchov e Boris Ieltsin e a Argentina de Carlos Menem. Sabemos quão desastroso foi seu resultado. Quanto mais um país adotou as políticas neoliberais, menos cresceu. A redução dos salários foi alcançada, mas: 1) essa redução causou insuficiência de demanda e obrigou os países a produzirem mais bens de luxo e menos bens de salário para compatibilizar oferta e procura 2) as políticas neoliberais de desregulamentação salarial minaram a solidariedade social, levando os trabalhadores a perder sua identificação com suas empresas e com seu país e 3) a liberalização financeira tornou as economias nacionais mais sujeitas a crises, que se multiplicaram em todo o mundo: a desregulação “big bang” do setor financeiro promovida por Thatcher em 1986 está na origem da crise atual. Em 1988, quando escrevi o trabalho “O ciclos da intervenção do Estado” (disponível em meu site), eu previa que a onda neoliberal terminaria dentro de algum tempo, como, naquela década, terminara o ciclo desenvolvimentista e social iniciado em 1930. Embora afirmasse que a tendência geral, porque compatível com a democracia, era a do aumento gradual da regulação estatal e da garantia universal dos direitos sociais, eu afirmava que esse processo não era linear, mas sujeito a ciclos. Confesso, entretanto, que não esperava que o final do neoliberalismo ocorresse tão depressa e de forma tão violenta. Ainda que derrotado, o neoliberalismo não morreu. No final de seu artigo, Rachman duvida que o incentivo ao trabalho pregado pelo neoliberalismo tenha sido destruído pelos bônus recebidos por banqueiros enquanto estes levavam seus bancos à quebra lembra a célebre frase de Thatcher: “Não há alternativa” e cobra uma alternativa coerente. Tolice, as alternativas existem, mas não são exprimíveis em equações matemáticas coerentes com o que pretendem os economistas neoliberais. São fruto da experiência e do bom senso combinados com modelos teóricos abertos, como são a teoria keynesiana e a teoria estruturalista do desenvolvimento econômico. O neoliberalismo não voltará tão cedo: sua crise é incomparavelmente mais grave do que a desaceleração econômica que, nos anos 1970, facilitou o assalto neoliberal.

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