A crise e o Brasil

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Publicado em 06/05/2009 | Luciano F. Gabriel e José Luis Oreiro

A introdução do Plano Real em 1994 permitiu a obtenção da estabilidade monetária, condição necessária, mas não suficiente para o desenvolvimento econômico. Uma das grandes inovações do plano foi introduzir a Unidade Real de Valor (URV). A ideia fundamental da URV era eliminar a inércia inflacionária por intermédio da indexação instantânea e generalizada de todos os contratos existentes na economia brasileira. Uma criação coletiva, a partir de discussões e formulações de André Lara Rezende, Pérsio Arida, Francisco Lopes e Gustavo H. B. Franco, economistas vinculados ao departamento de economia da PUCRJ.

Em junho de 1994, a URV deixou de ser apenas unidade de conta, tornando-se também meio de pagamento com a introdução do real como moeda legal no país. Para garantir a estabilidade do valor da nova moeda, foi introduzido um modelo macroeconômico baseado na adoção de uma âncora monetária (metas para expansão da oferta de moeda) e um sistema cambial de meia banda, no qual o Banco Central apenas fixava o valor máximo da moeda norte-americana em reais.

Posteriormente, em função dos efeitos da crise do México (1994), o modelo macroeconômico foi alterado por intermédio do abandono das metas monetárias e pela introdução de um sistema de “paridade deslizante” no qual a autoridade monetária fixava, dentro de uma banda de variação, a taxa de desvalorização do câmbio nominal. Esse sistema terminou por engessar a política cambial do país, produzindo uma fortíssima apreciação da taxa real de câmbio, a qual resultou num desequilíbrio externo, expresso por grandes déficits em conta-corrente, os quais chegaram a mais de 4% do PIB em 1998.

O desequilíbrio externo e a “parada súbita” da entrada de capitais de curto prazo na economia brasileira a partir de meados de 1998, como resultado da crise russa, produziram um forte “ataque especulativo” contra o real. Em janeiro de 1999 ocorreu o abandono do regime de “paridade deslizante” e a taxa de câmbio sofreu uma maxi-desvalorização. Foi em 1999 que o Banco Central do Brasil adotou uma nova âncora nominal: um regime de metas de inflação.

Em mais um aniversário do Plano Real, o Brasil se vê no meio de uma crise financeira internacional sem precedentes nos últimos 70 anos. Dessa vez, contudo, a economia brasileira está mais bem preparada para enfrentá-la, apesar de não estar imune. A evidência empírica tem demonstrado que regimes de metas de inflação mais flexíveis geram um desempenho de crescimento superior a regimes mais rígidos, como no caso brasileiro, o qual teve uma das piores quedas do PIB no quarto trimestre de 2008 em relação aos demais países no mesmo período de comparação (-3,6%). Em larga medida, pecou-se pelo excesso de conservadorismos diante dos sinais claros do efeito contágio no mercado de crédito nacional, comprometendo o consumo e o investimento.
Luciano F. Gabriel é economista e professor da Unibrasil.

José Luis Oreiro é economista e professor adjunto do departamento de economia da Universidade de Brasília.

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