Barry Eichengreen

O Estado de S.Paulo, 31.3.2009.

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O paralelo entre 1930 e 2009 é assustador. O colapso dos preços de ativos em Wall Street desde outubro de 2007 segue quase o percurso da crise de 1929. A desaceleração da produção industrial desde abril de 2008 se compara à de agosto de 1929, e as exportações globais tiveram recuo ainda mais rápido desde abril de 2008.
A diferença entre os dois episódios é a resposta política: tépida e hesitante após 1929, mas agressiva em 2008.
A pergunta de US$ 64 trilhões é se essas políticas vão funcionar.
Para entender se elas vão nos tirar da depressão – pois a rapidez da crise já nos permite chamá-la assim – implica saber como chegamos a isso. O consenso acadêmico é de que a Grande Depressão resultou de mudanças bruscas na paisagem financeira global (aceleradas pela 1a. Guerra), às quais se sobrepôs uma ideologia política rígida e irrealista. No fim do século 19 e no início dos anos 20 verificou-se integração de novas potências. A Alemanha se industrializou e os EUA emergiram como maior economia do mundo, o principal credor global.
Enfraqueceu a posição de credora internacional da Grã-Bretanha. A Alemanha se viu com dívida de US$ 33 bilhões em indenizações, a maioria para os EUA, resultando em “desequilíbrios globais”. Toda essa liquidez fluindo para os americanos tinha de ir para algum lugar. Primeiro foi para a Flórida, com a sua bolha imobiliária, e depois para Wall Street.
Sobrepondo-se a essa paisagem estava a ideologia do padrão-ouro, que mantinha as relações financeiras e as taxas de câmbio do pré-guerra. Quando a crescente força da economia dos EUA e da sua balança de pagamentos precisou ser contrabalançada por uma taxa de câmbio mais forte do dólar, essa ideologia restaurou as taxas de câmbio do pré-guerra.
Isso deixou o sistema financeiro e monetário internacional predisposto a uma crise. Bastaria um pequeno choque – um aumento nas taxas pelo Federal Reserve (Fed) para desaquecer o boom de Wall Street – para desmoronar o castelo de areia.
Nesse momento, a ideologia do padrão-ouro entrou em ação e piorou as coisas, pois aconselhou a inação. Só no fim de 1931, quando a economia mundial tinha ido para o brejo, a destrutiva ideologia foi abandonada, as taxas de câmbio foram ajustadas e a política monetária, libertada. Os bancos centrais puderam tentar estabilizar seus sistemas. Mas não antes de milhões de vítimas serem submetidas a enorme sofrimento. E não a tempo de evitar consequências mais graves a partir de 1939.
Hoje a combinação de mudanças a uma ideologia rígida e irrealista resultou em crise tão grave quanto a Grande Depressão. Dessa vez o ambiente global vê a ascensão da China e o excesso de poupança dos mercados emergentes, que inundou os mercados americanos de fundos baratos. Hoje a ideologia é a da desregulamentação, que permitiu que investidores institucionais alocassem esses fundos onde lhes agradasse.
O debate é como um concurso entre os dois fatores – qual deles é realmente importante? Ben Bernanke culpa a abundância global de poupanças pela crise. Outros acusam a regulamentação frouxa diante da crença equivocada de que os mercados eram autorreguladores. A realidade é que ambos os fatores tiveram seu papel. E foi a sua interação que nos lançou na crise.
A grande diferença entre os anos 30 e hoje é a resposta política. Antes, levou-se anos para os bancos centrais se libertarem e expandirem balancetes. E a expansão foi tímida. Os EUA confiaram na desvalorização da moeda para aumentar as entradas de ouro, como meio de dar liquidez à economia. O estímulo fiscal foi medida provisória e raquítica. Só quando os governos aumentaram despesas em rearmamento, rumo à 2a. Guerra, a política fiscal teve impacto.
Hoje, pelo contrário, o Fed se apressou em cortar a taxa básica para zero. Os balanços expandiram, com outros bancos centrais no mesmo passo. EUA e China fizeram pacotes de estímulo que chegaram perto de 2% do PIB, em 2009. Estamos prestes a testar se essa resposta política acabará com a depressão.
Ou já estaríamos fazendo o teste? Há o perigo de que a flexibilização monetária não funcione porque não conseguimos estabilizar nosso esfacelado sistema bancário. Pode-se sentir o estímulo monetário por vários canais, mas o mais importante ainda é o crédito bancário. E se não sanarmos nossos sistemas bancários, o maior esforço dos bancos centrais vai dar em nada.
No caso, é inquietante o fato de os EUA hesitarem em recapitalizar o sistema bancário. Talvez o secretário do Tesouro, Tim Geithner, entenda o problema, mas esteja paralisado pela oposição política. A recapitalização exige grandes somas de dinheiro, e o Congresso deve se recusar a tirar mais do contribuinte para o problema dos bancos.
Assim, conforme a economia dos EUA se deteriora, parece mais necessária nova dose de estímulo fiscal. Mas, em vez de só debater sobre como e quanto, a classe política declarou guerra civil. Retomou antigos combates ideológicos sobre os males de um governo controlador. Temos até o espectro de oponentes do presidente Obama esperando que as tentativas fracassem para fortalecer a posição política deles. Isso não produz a política fiscal que os EUA precisam. Na Europa, equívocos econômicos ganham terreno conforme as condições pioram. O Banco Central Europeu resiste em cortar mais as taxas de juros, temendo criar uma armadilha de liquidez. Os países da União Europeia, individualmente, relutam em criar o estímulo fiscal de que necessitam porque, dada a integração das economias, parte do impacto positivo beneficiaria o vizinho. O que se teme é que a Europa não adote nenhuma política fiscal nem monetária.
Mas há uma alternativa. Se adotarmos políticas adequadas, conseguiremos fazer o teste para saber se políticas similares podem acabar com a depressão. Ou podemos repetir o desastre dos anos 30. Nesse caso, políticas melhores fariam a diferença? Em caso afirmativo, por que os políticos não veem a luz no fim do túnel?
Barry Eichengreen, economista, é membro do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial.

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