Um leitor do blog recentemente pediu “provas” do desprezo de Keynes por Hayek. Esse leitor apresentou uma “citação” (sem dizer a fonte) de Keynes no qual ele teria afirmado que:

“Trata-se, na minha opinião, de um grande livro. Todos temos razões para lhe sermos gratos…Estou moral e filosoficamente de profundo e comovido acordo.”

Procurei essa citação nos Collected Writings of John Maynard Keynes (Vols XIII e XIV) que reunem os escritos de Keynes preparatórios para a Teoria Geral e “after” e confesso que não encontrei. 

Mesmo que Keynes tenha, de fato, feito esse comentário sobre o livro de Hayek, deve-se ter em conta que uma característica importante da personalidade de Keynes era a forma irônica com a qual ele tratava os adversários.  Em carta endereçada a John Hicks (31/03/1937), na qual Keynes comenta o artigo  “Mr. Keynes and the Classics: a suggested interpretion”, o qual daria origem ao modelo IS-LM, Keynes começa afirmando que “(…) I found it very interesting and really have next to nothing to say by the way of criticism” (CWJMK, Vol. XIII, p.79). Aparentemente seria um endosso a análise de Hicks e ao modelo IS/LM. No entanto, Keynes passa os 8 parágrafos seguintes criticando extensamente o artigo de Hicks. Se na análise de Hicks a diferença entre “Keynes” e os “clássicos” se baseava na inclinação da curva LM (vertical para os “clássicos” e horizontal para Keynes), Keynes afirma categoricamente que: “(…) The difference between myself and the classicals lies in the fact that they regard the rate of interest as a non-monetary phenomenon, so that an increase in the  the inducement to invest would raise the rate of interest irrespective of monetary policy” (CWJMK, VOL. XIII, p.80). Para quem disse que não iria criticar nada ….

Voltando nossa atenção especificamente a Hayek, Keynes faz em 1931 uma crítica extensa ao livro de Hayek, prices and production (o qual era uma crítica ao Treatise on Money de Keynes). Essa crítica foi publicada na Economica em novembro de 1931 num artigo intitulado “The Pure Theory of Money: a reply do Dr. Hayek” (CWJMK, Vol. XII, pp. 243-257). Nessa crítica Keynes começa afirmando que: “(…) It is not really my use of language or the fact that my treatment falls short of complete analysis (…) which is troubling him. It is much more fundamental” (p.244). Algumas páginas adiante, Keynes afirma que a diferença fundamental entre ambos reside no fato de que o livro de Hayek é um “lamaçal” sem nenhuma proposição teórica sólida. Um exemplo de como ao se partir de hipóteses falsas, uma mente lógica poderia terminar num hospital de loucos. Nas palavras de Keynes:

“The book, as it stands, seems to me to be one of the most frightful muddles I have ever read, with scarcely a sound proposition (…) It is an extraordinary example of how, starting with a mistake, a remorseless logician can end up in Bedlam” (P.252).

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