O maniqueísmo foi um heresia muito difundida durante os primeiros séculos da Igreja Cristã, heresia essa que dividia o mundo entre dois polos bi-polares : bem supremo (Deus) e mal supremo (Diabo). Essa posição contrariava a visão cristã tradicional ou ortodoxa que afirmava a absoluta Supremacia de Deus sobre a Criação, sendo o mal apenas a “ausência de bem”, de tal maneira que o “Diabo” não podia se constituir num “polo antagônico” a Deus (cabe lembrar que segundo a tradição cristã, o chefe dos demônios, Lucifer, é apenas um anjo desobediente a Deus, ou seja, uma criatura que não pode, portanto, se igualar ao Criador).  

A filosofia maniqueísta inspira, conscientemente ou não, a crítica de F. Hayek ao Keynesianismo em seu livro intitulado “O Caminho da Servidão”. Segundo Hayek, o mundo se divide em dois princípios fundamentais de “filosofia política”, o liberalismo e o socialismo. Para Hayek não existe solução de compromisso possível entre esses dois princípios fundamentais: qualquer desvio do liberalismo em nome de “princípios social-democratas” seria apenas a transição “lenta, gradual e segura” para o socialismo. Dessa forma, todos aqueles que não comungam com a filosofia liberal (ou libertária) seriam, no fundo, socialistas !!! Em outras palavras, não existiriam diferenças fundamentais entre Keynes e Marx.

Essa visão maniqueísta da “filosofia política” contrasta de maneira gritante com a “filosofia política” de John Maynard Keynes e dos pós-keynesianos (pelo menos na vertente “americana” dessa escola liderada por Paul Davidson). Keynes tinha um profundo desprezo pelo marxismo e pelo socialismo, desprezo esse que só era superado pelo seu desprezo pelas idéias de F. Hayek. Sobre o marxismo, Keynes afirmava que “Como posso eu aceitar uma doutrina que tém como Bíblia, um livro-texto de economia absoleto, que não é apenas errado do ponto de vista científico, mas sem nenhum interesse e relevância para o mundo moderno”. No seu texto sobre o “fim do laissez-faire”, ele afirma sobre o socialismo-marxista: “Mas o socialismo marxista sempre deverá continuar sendo um prodígio para os historiadores das idéias – de como uma doutrina tão ilógica e tão insípida pode ter exercido uma influência tão poderosa e permanente na mente dos homens e, através deles, nos eventos da história“. 

Keynes tinha também muita os clareza sobre o papel do governo na economia. Para ele, a intervenção do governo tinha por objetivo melhorar o desempenho do sistema econômico ao invés de “preparar o caminho para o socialismo”. Em outras palavras, tratava-se de reformar o sistema, e não fazer a revolução socialista. Nas suas palavras:  “(…) os devotos do capitalismo frequentemente são indevidamente conservadores e rejeitam reformas em sua técnica, que, na verdade, poderiam realmente reforça-lo e preserva-lo , por meio de que tais reformas possam a vir a ser os primeiros passos para o afastamento do capitalismo“. Não é por outra razão que os marxistas ortodoxos, principalmente no Brasil, consideram o Keynesianismo o maior obstáculo as suas pretensões revolucionárias …

O maniqueísmo é práxis entre os liberais brasileiros. Incapazes de defender o “laissez-faire” até as suas ultimas consequências lógicas ( o que envolve um reductio ad absurdum) , ao serem expremidos pela força dos argumentos keynesianos, acabam por “apelar” para a (sic) similariedade entre o Keynesianismo e o Socialismo. Assim, os liberais desejam, muitas vezes de forma puramente subliminar, associar o Keynesianismo (ou o “Desenvolvimentismo”) às idéias socialistas. Eu mesmo pude constatar isso ao vivo no meu debate com Gustavo Franco em 2006. Talvez sem saber que estava diante de um adversário declarado do comunismo, Gustavo Franco começa o seu debate comigo dividindo o mundo entre a “visão vitoriosa” (liberal) e as idéias derrotadas após a queda do muro de Berlim. Diante de tamanha insensatez ideológica, tive que mudar o começo da minha apresentação – estruturada em torno do debate puramente técnico a respeito dos requisitos para o crescimento sustentado a longo prazo na visão keynesiana, a assim chamada “demand-led growth theory” – para refutar a “heresia maniqueísta”.  Comecei saudando, tal como ele fizera, a queda do muro de Berlim, mas encaminhei minha argumentação para mostrar o caráter essencialmente “conservador” (para os marxistas ortodoxos, reacionário) do pensamento Keynesiano. No final consegui ganhar o público, a ponto de ter sido convidado pelo Instituto de Estudos Empresariais – uma entidade cuja finalidade é patrocinar as idéias liberais no Brasil – a apresentar minha visão anti-comunista num seminário em Porto Alegre para os membros do IEE !!!

Em resumo, ao invés de um mundo bi-polar como querem os maniqueus liberais, podemos pensar a filosofia política como um espectro contínuo de opções ideológicas que combinam proporções diferentes (numa “função de produção” com coeficientes variáveis) entre “Estado” e “Mercado”. Num extremo está o “comunismo puro” (100% Estado, 0% mercado) e noutro extremo o “liberalismo puro” (0% Estado, 100% mercado”). Entre esses dois extremos temos um continum de opções ideológicas, que combinam “Estado” e “mercado” em diferentes proporções. As diversas sub-correntes do Keynesianismo se encaixam nesse intervalo. Dessa forma, algumas sub-correntes defendem uma presença maior do Estado na forma de aumento da participação dos gastos de consumo corrente do governo no PIB ( os Keynesianos que estão atualmente no governo PT). Outras sub-correntes defendem que o governo deve concentrar seus esforços apenas na regulação da quantidade de recursos que a sociedade destina todos os anos ao investimento (é a tese da “socialização do investimento”, defendida pelos Keynesianos-Desenvolvimentistas como Bresser-Pereira, Nakano e o próprio governador José Serra, pré-candidato do PSDB a Presidência da República). Nesse contexto, a eleições de 2010 serão, fundamentalmente, uma disputa entre sub-correntes do Keynesianismo brasileiro pelas rédeas da política econômica.

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