economia brasileira agradece

Por Pedro Henrique Barreto, de Brasília

Eugênio Gudin é um dos ícones da história econômica brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, em 1886, ocupou cargos importantes na academia, na iniciativa privada e no governo federal. Foi ministro da Fazenda entre 1954 e 1955, durante a presidência de Café Filho. Por seu pioneirismo no ensino superior de economia no País, foi designado pelo então ministro da Educação, Gustavo Capanema, em 1944, para a redigir a lei que institucionalizava o curso no Brasil. É considerado o principal expoente da escola monetarista nacional.

O monetarismo ortodoxo defendido por ele baseava-se no rígido controle da inflação, nos cortes em investimentos públicos e na restrição do crédito como receita para o desenvolvimento. Sempre se mostrou contrário às medidas protecionistas da economia. Acreditava na igualdade de tratamento que deveria ser dado ao capital – nacional ou estrangeiro.

Gudin, no entanto, considerava corretas as idéias de John Keynes para analisar períodos de depressão econômica. Foi, inclusive, um dos primeiros a divulgá-las em português, em seu livro Princípios de economia monetária, lançado originalmente em 1943. A obra foi a primeira sobre monetarismo publicada no País e se tornou chave para as gerações de economistas. Sua trajetória foi também marcada pela autoria de artigos para jornais e publicações técnicas e participação em importantes conferências no Brasil e no exterior.

Ele sustentava posturas bem definidas sobre as grandes questões da economia política brasileira e global. Partidário da chamada corrente neoliberal, pregava a não intervenção estatal na economia. Em seus textos, ponderava que a doutrina econômica para países desenvolvidos e subdesenvolvidos era uma só. Com uma ressalva: do ponto de vista da formulação de políticas econômicas, “As diversidades de estrutura são bastante marcadas para que seja preferível tratar de cada caso separadamente”.

A preocupação com os problemas do subdesenvolvimento norteou estudos e pesquisas do economista. Como presidente do Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas, nos anos 1950, trouxe ao País economistas renomados internacionalmente. “Trata-se de um dos mais conhecidos e respeitados pensadores economistas do País. É um dos responsáveis pelo fortalecimento da discussão de assuntos econômicos nas universidades e, consequentemente, na sociedade”, diz José Luis Oreiro, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB).

ESTABILIZAÇÃO No governo federal, Gudin instituiu novidades: o sistema de desconto na fonte do imposto sobre os assalariados e o imposto sobre energia elétrica. Enquanto ministro, numa época de inflação nas alturas, promoveu uma política de estabilização econômica baseada em um regime fiscal duro e no recuo da oferta de crédito. Acabou batendo de frente com setores da indústria. A facilitação de investimentos estrangeiros, no entanto, foi uma de suas determinações que acabou sendo utilizada amplamente nos governos posteriores, especialmente o de Juscelino Kubitscheck, e que acabou sendo uma das bases para o chamado “milagre econômico” brasileiro.

Em 1943, Gudin participou do I Congresso Brasileiro de Economia. No ano seguinte, foi o delegado brasileiro na Conferência Monetária Internacional, em Bretton Woods, nos Estados Unidos. O encontro foi o ponto de partida para a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BIRD). Gudin soube marcar posição: a conferência abraçou postulados neoliberais em relação ao comércio internacional, afastando o protecionismo que predominava na época e refutado pelo brasileiro. Entre 1951 e 1955, representou o governo brasileiro junto ao FMI e ao BIRD.

Fernando Carlos Lima, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que Gudin foi um dos precursores da idéia de que o País precisava ter um Banco Central para atuar na economia. “A partir do encontro de Bretton Woods esse pensamento ganhou força. Gudin é, sem dúvida, um dos alicerces do desenvolvimento da economia brasileira”, afirma.

Gudin formou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1905. Desde então, construiu uma grande carreira acadêmica. O interesse por economia o levou ao curso em 1922. Em 1938, foi um dos fundadores da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas. Mais tarde, a faculdade seria incorporada à Universidade do Brasil, hoje a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá, a biblioteca do Instituto de Economia homenageia o intelectual. “Quando comecei a dar aulas, nos anos 1970, os livros de Gudin eram sempre os mais usados. Hoje, não é diferente. É um pensador que reuniu teorias que possibilitaram grandes avanços em nossa economia”, salientaLima. Gudin foi professor até a aposentadoria, em 1957. Na Fundação Getúlio Vargas, criou o Instituto Brasileiro de Economia e a Escola Pós-Graduação em Economia. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1986.

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