Núcleo volta ao debate da inflação

 

Natalia Pacheco, Jornal do Brasil

 

RIO DE JANEIRO – Um dos meios de destravar a economia brasileira neste momento de crise financeira internacional é flexibilizar as metas de inflação. Esta é a conclusão do livro Política monetária, bancos centrais e metas de inflação: teoria e experiência brasileira, que será lançado em maio deste ano pela editora da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-Rio). Um dos organizadores da obra, o professor de Economia da Universidade de Brasília (UNB), José Luís Oreiro, falou sobre a rigidez do regime de metas de inflação brasileiro e como mudanças em alguns pontos ajudarão no desenvolvimento do país. Os professores Luiz Fernando de Paula, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), e Rogério Sobreira, da FGV-RJ, são os outros organizadores do livro.

Uma das primeiras modificações a ser feita no regime é a troca do índice cheio, sem expurgos, pelo núcleo de inflação. O professor explica que o primeiro considera a variação de preços de inúmeros produtos que sofrem com forte volatilidade. Já o núcleo de inflação desconsidera a variação de preços de elementos sensíveis a “choques de oferta”, como alimentos e energia, o que ajudaria a flexibilizar as metas.

– Os produtos primários têm uma importante participação no consumo agregado nos países emergentes, como o Brasil, devido aos padrões de consumo associados à baixa renda – explicou. – Esses preços são ainda particularmente voláteis às condições climáticas e, eventualmente, a fatores geopolíticos.

Outro ponto de consenso entre os articulistas do livro, a maioria professores das principais universidades do país, é a questão do prazo de convergência. Os economistas que participaram da obra defendem um maior horizonte temporal, de mais de um ano, para a meta de inflação. Essa mudança atenuaria os efeitos dos choques de demanda temporários sobre a taxa. Para fazer uma comparação com o Brasil, Oreiro lembra que o prazo em outros países, como os Estados Unidos, varia de 18 a 24 meses. Há até casos de prazo indefinido.

– Se os gastos com investimento estiverem crescendo a taxas mais elevadas do que a demanda agregada global, a capacidade de crescimento do produto será cada vez maior a médio prazo, configurando o caráter temporário de uma situação de excesso de demanda. Sob essas condições, é necessário um prazo maior para as metas de inflação – destacou o professor.

Regime consolidado

Oreiro assegura que tais mudanças podem ser feitas porque o regime de metas de inflação já tem quase 10 anos. A vantagem imediata com a flexibilização das metas seria a redução da volatilidade da taxa básica de juros (Selic) sem prejuízo

ao controle inflacionário brasileiro.

– A atual rigidez das metas força altas taxas de juros, que contribuem para o aumento do custo do capital e consequentemente do desenvolvimento da economia. A idéia não é abandonar o regime, mas flexibilizá-lo – ressaltou o professor.

Ainda há uma terceira mudança que contribuiria ainda mais para o destravamento da economia brasileira: cláusulas de escape. Com essas brechas, o Banco Central não seria obrigado a perseguir as metas de inflação.

– As cláusulas de escape são ideais para esse momento de crise. O atual quadro de quedas do Produto Interno Bruto (PIB), produção industrial e emprego já permitiria o não cumprimento da meta este ano e isso alivia a pressão sobre a Selic – explica Oreiro.

20:38 – 21/03/2009


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