Uma das desculpas que o BCB usou até agora para ser comedido no processo de redução da taxa básica de juros foi a pequena redução da inflação acumulada nos ultimos 12 meses e das expectativas de inflação. Com efeito, apesar do PIB brasileiro ter caído 3,6% no quarto trimestre de 2008, só em março é que as expectativas de inflação para o ano de 2009 convergiram para o centro da meta de inflação (na verdade, estão ainda um pouco acima: 4,57% segundo o boletim Focus) . Em outros países temos observado uma queda mais rápida da inflação do que no Brasil, alguns deles inclusive já correm o risco de enfrentar uma deflação?

Por que razão a inflação brasileira tem se mostrado tão resiliente a uma queda vertiginosa do nível de atividade? Os “ortodoxos” certamente atribuem esse fenômeno a credibilidade imperfeita do BCB, resultado do fato de que no Brasil, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos ou na União Européia, o Banco Central não é independente. Essa credibilidade incompleta ou imperfeita seria responsável pela geração de um “viés inflacionário”, o qual seria a explicação da reduzida queda da inflação no Brasil, apesar do quadro gravemente recessivo. Dessa forma, continua o raciocínio “ortodoxo”, a solução seria completar o processo de implementação do regime de metas de inflação por intermédio da concessão formal de independência do BCB.

Uma outra explicação possível, e a meu ver mais correta, se encontra na especificidade da crise econômica atingiu o Brasil após a falência do Lehman Brothers. O “choque” ocorrido sobre a economia brasileira não foi um típico “choque de demanda” negativo (na linguagem modelística dos economista, um deslocamento para baixo e para a esquerda da curva de demanda agregada), mas um choque de crédito. O pânico causado pelas perdas com os derivativos cambiais somado a parada súbita do financiamento externo a economia brasileira, produziu uma forte contração do crédito bancário, fenômeno esse conhecido na literatura como “evaporação do crédito”. A contração do crédito não afeta apenas a demanda agregada, mas tem também um impacto muito forte sobre a oferta agregada a medida que as empresas precisam de crédito bancário para financiar o seu capital de giro e, portanto, as suas atividades normais de produção. Dessa forma, a “evaporação do crédito” produziu um deslocamento simultâneo das curvas de oferta (para cima e para a esquerda) e da demanda agregada (para baixo e para a esquerda). A resultante desses deslocamentos simultâneos foi uma brutal queda do nível de atividade econômica, expresso tanto pela queda de 17,2% da produção industrial em janeiro de 2009 comparada com o mesmo período do ano anterior, e uma redução modesta da taxa de inflação.

Nesse contexto de choque simultâneo sobre a oferta e a demanda agregada, qual deveria ter sido o comportamento do BCB? Para minimizar os efeitos do choque, o BCB deveria ter reduzido rapidamente a taxa de juros nas reuniões de outubro e dezembro de 2008, com o objetivo de induzir os bancos comerciais a aumentar as suas linhas de crédito, ao invés de se refugiarem na segurança (aliada a uma grande rentabilidade) dos títulos públicos. Essa expansão monetária, que alguns diriam “irresponsável”, teria reduzido o impacto negativo sobre a oferta e a demanda agregada, de tal forma que a queda do PIB e da produção industrial teriam sido bem menores, e o impacto inflacionário teria sido negligenciável (para o leitor se certificar da validade deste raciocínio, faça o exercício inverso: considere um deslocamento simultâneo das curvas de oferta e de demanda agregadas, a curva de oferta para baixo e a curva de demanda para cima).

Com base nesse raciocínio, a conclusão lógicamente inescapável é que o BCB cometeu um erro grave de avaliação dos canais de transmissão da crise econômica mundial sobre o Brasil. Com base nesse erro de diagnóstico, sua prescrição foi equivocada e altamente prejudicial ao “paciente”. É o caso clássico de “erro médico”. Nos países desenvolvidos, os médicos que cometem erros de diagnóstico que prejudiquem seriamente seus pacientes são condenados a pagar indenizações milionárias, podendo inclusive ser proibidos de exercer a sua profissão. Já no caso da autoridade monetária brasileira, aqueles que “ousam” afirmar que a diretoria do BCB deveria ser sumariamente exonerada de suas funções por incompetência são acusados de “terrorismo”. Afinal de contas, a diretoria do BCB é composta por insubstituíveis … um país de 180 milhões de habitantes ao sul da linha do equador, não pode se dar ao luxo de substituir 8 membros “notáveis” da diretoria de sua autoridade monetária …

Termino este post com a famosa frase de Nelson Rodrigues: “O cemitério está cheio de insubstituíveis”.

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