Excelente a coluna do prof. Delfim Netto hoje no Valor Econômico. O prof. Delfim chama atenção para uma questão de tem sido negligenciada pelos economistas: o papel desempenhado pelos modelos macroeconômicos da “moda” no agravamento da crise no Brasil.
O modelo macroeconômico padrão utilizado pelos formuladores de política monetária atualmente é o modelo DSGE (dynamic stochatic general equilibrium) com rigidez nominal, que é o “core analítico” do “novo-keynesianismo de segunda geração” (uma exposição completa desses modelos por ser obitda em Galí, J. (2008). Monetary policy, inflation and the business cycles: an introduction to the new keynesian framework. Princeton University Press). Nesses modelos assume-se a existência de mercados contingentes completos (a la Arrow-Debreu) de maneira que, parafraseando Frank Hahn, um dos maiores teóricos de equilíbrio geral do sécuclo XX, existe “um preço cotado hoje para um guarda-chuva a ser entrege em Cambridge no Natal de 2150, se chover”. Esses modelos não tem espaço para “falhas de informação” como as enfatizadas pelos “novos-keynesianos” da primeira geração, como Stiglitz e Weiss. A informação é simétrica, os agentes tem expectativas racionais e, por conseguinte, os mercados finaneiros são eficientes no sentido de Fama. A única “falha de mercado” que esses modelos consideram é a que resulta da existência – um tanto arbitrária, para se dizer o mínimo – de rigidez nominal (resultado da existência de menu-costs) . Nesse arcabouço, o policy-maker fixa a taxa básica de juros com base em alguma regra que seja capaz de minimizar a função perda social, definida em termos de dois objetivos: o desvio da inflação com respeito a alguma meta de inflação de longo-prazo e o desvio do produto com respeito ao “produto potencial” ou de “pleno-emprego”. A depender dos pesos que o policy-maker atribua para esses dois objetivos, os quais refletem, em tese, a “aversão social a inflação”, a trajetória da taxa de juros básica e do nível de produto será mais ou menos volátil, face a choques de demanda e/ou de oferta.
Os modelos DSGE não levam em conta, portanto, o papel das variáveis financeiras na explicação dos ciclos econômicos. Estes resultam da ocorrência de choques de demanda ou de oferta num contexto em que i) os preços nominais são rígidos (de forma que a economia não opera a todo o momento em pleno-emprego); ii) a autoridade monetária atua no sentido de minimizar a perda social inter-temporal decorrente dos desvios da inflação com respeito a meta e dos desvios do produto com respeito ao potencial. As flutuações do PIB produzidas por esses modelos são flutuações de “segunda ordem”, pequenos desvios com respeito a trajetória dinâmica do produto explicada pela evolução do “produto potencial”. Como não há espaço para variáveis financeiras, também não há lugar para que alterações súbitas no “estado de confiança” gerem uma “evaporação do crédito” que produza uma contração (de primeira ordem) do produto real e da demanda agregada. Isso significa que as “previsões” feitas com base nesse tipo de modelagem irão possuir um “viés otimista” em termos de evolução do nível de atividade econômica, num cenário de crise financeira como o que vivemos atualmente.
Essa digressão nos permite intuir uma das razões pelas quais o BCB demorou 5 meses para fazer uma redução líquida de apenas 0.25 p.p na Selic (lembrando que no início de setembro, as vésperas da crise, o BCB aumentou a taxa de juros em 0.75 p.p). Os modelos que o BCB utiliza para fundamentar a fixação da Selic são, na sua essência, modelos DSGE com rigidez nominal. Esses modelos não levam em conta justamente os fatores que são essenciais para se entender a gravidade da crise econômica que assola o mundo e, em particular, o Brasil. Com base nesses modelos, uma queda acumulada de quase 20% na produção industrial no final de 2008 (e os efeitos que essa queda, sem dúvida, terá sobre o PIB do quarto trimestre de 2008 e do primeiro trimestre de 2009) é um evento impensável. Assim explica-se a relutância dos diretores do Copom em reduzir os juros a uma velocidade maior : o seu arcabouço intelectual não lhes permitiu vislumbrar a gravidade da crise econômica e seus impactos no Brasil.
Finalizo essas observações com uma frase que meu amigo Fernando Holanda Barbosa gosta sempre de repetir : “models are to be used, not be believed”.
Vejam abaixo o artigo do Delfim.
| A ilusão monetária |
Antonio Delfim Netto
17/02/2009
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| Nos últimos 50 anos, o conhecimento de como funciona o sistema econômico melhorou dramaticamente: sofisticou-se, enfatizou a necessidade de construir modelos mais rigorosos em linguagem matemática e exigiu a construção de uma metodologia estatística especial para verificar se eles resistem à comparação com a realidade. Esperava-se um bônus adicional: a eventual possibilidade de que tais modelos permitissem algum tipo de “previsão” utilizável fora do período da amostra, o que, infelizmente, até agora não se verificou. |
| As razões do fracasso dessa ardente aspiração científica são várias. Muito provavelmente estão ligadas ao próprio objeto de estudo: um universo, que ao contrário do físico, está sempre em rápida mutação, onde o átomo (o homem) aprende, antecipa, escolhe e as “leis naturais” (as instituições) são produto de sua própria ação. De qualquer forma, é impossível negar que foi apreciável o resultado final desse esforço. Ele ajudou a formular políticas econômico-sociais mais adequadas para atingir objetivos definidos pelo poder político incumbente. |
| Suspeito que, em nenhum dos campos do conhecimento e do ensino da economia, a diferença entre o que se fazia há 50 anos e o que se faz hoje seja maior do que a que se refere à moeda e ao crédito. Por um lado houve um enorme avanço na teoria monetária, com a construção de sofisticadíssimos modelos (que resistem duvidosamente aos ataques empíricos) e, por outro, um enorme empobrecimento do conhecimento do papel da moeda e do crédito no processo de desenvolvimento da sociedade humana. |
| Na velha FEA/USP dos anos 50 do século passado, um competente e exigente autodidata em economia, mas com sólida formação humanística, o professor Dorival Teixeira Vieira, investia na disciplina Moeda e Crédito meia dúzia de horas para explorar a fundamental história da origem da moeda e do crédito e o seu sentido mais profundo como “relação social”, isto é, instituição construída sobre a confiança dos indivíduos uns nos outros, o cimento que precede e torna possível a existência da própria sociedade. |
| Tratava-se de um rápido sobrevoo pela psicologia, pela antropologia e pela sociologia da moeda e do crédito para insistir que a confiança que cada pessoa deposita na outra – uma relação social institucional – é a condição básica para o funcionamento do “circuito” econômico, onde o dispêndio de um é a renda do outro. No curso, o tratamento da taxa de juros (mais de cunho histórico) deixava muito a desejar. Sua principal influência era uma tênue ligação empírica entre ela e a velocidade de circulação da moeda na teoria quantitativa. |
| Na disciplina Moeda e Crédito, em 1951, o Keynes do Tratado da Moeda (1930) era restrito ao início da incorporação das finanças na teoria monetária e às suas identidades (“equações fundamentais”). Não se entendia o papel da variação dos preços na distribuição da renda para acomodar o equilíbrio entre poupança e investimento, nem o novo protagonismo da taxa de juros. E não se falava de sua dúvida devastadora sobre a estabilidade da economia de mercado. |
| Para entender a diferença do ensino e do conhecimento entre 1950/1955 e 2003/08 nessa matéria, basta dizer que os livros mais sofisticados e na “moda” da “teoria monetária” de hoje, que pretendem ensinar aos bancos centrais do mundo como controlar suas taxas de inflação, ignoram diretamente a moeda e não veem necessidade da palavra “crédito”. Basta-lhes a manipulação da taxa de juros. Foi por isso que eles demoraram tanto para entender a crise de confiança que se instalou no sistema financeiro mundial, confundindo-a com uma crise de liquidez. |
| No Brasil, pelo mesmo motivo, importamos a crise em grau maior do que o necessário, porque nossa política monetária esteve sempre na direção certa, mas sempre, também, atrasada e homeopática. Faltou-lhe (mesmo com o swap do FED) o conhecimento, a coragem e a convicção para dar decisivo conforto ao sistema bancário nacional. Pior, promoveu uma miótica seleção “huxleyana”: banco privado grande come banco privado pequeno e os dois serão comidos pelos bancos oficiais, o que terá terríveis consequências para a competição futura… |
| É preciso insistir na irrelevância da afirmação que, no longo prazo, a moeda é “neutra”, ou que ela é apenas um “véu” que esconde, mas não modifica, os fatos reais da economia, que no fundo informa a “moderna” teoria. No curto prazo (que é onde temos que viver), há uma insuperável ligação entre os fenômenos monetários e creditícios e os fenômenos da economia real. A ideia que os fenômenos reais da economia são produzidos apenas pela variação dos recursos, das preferências e das tecnologias à disposição dos agentes (a teoria dos ciclos reais apreciada por alguns dos nossos economistas) é tão insatisfatória quanto a ideia (defendida por outros não menos ilustres) que eles são produzidos apenas pelos fenômenos monetários. |
| Por mais poderosos que sejam os argumentos da moderna teoria monetária sobre a possibilidade e a conveniência de ignorar a moeda e o crédito e substituí-los pela manipulação da taxa de juros na execução da política monetária, eles não resistem nem a pequenas modificações nos modelos (por exemplo a simples introdução do crédito bancário e de títulos do governo no modelo neowickselliano ou neokeynesiano), nem melhoram sua aderência à realidade. É hora de reconhecer que a “grande moderação” que parecia ter sido conseguida pela política monetária que ignorava a confiança, a moeda e o crédito era, apenas, uma “ilusão”… monetária. |
| Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feira |
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Acho que estamos rodando em círculos. Ninguém mais duvida que algo estava errado nos modelos e que eles servem para entender e fazer boa politica na vizinhança dos equilibrios.
Mas é importante salientar que isto que está acontecendo tem pouco a ver com o diagnóstico keynesiano fundamentalista de escassez de demanda. Também tem pouco a ver com a forma como é tratada a não neutralidade da moeda por boa parte, eu diria a maior parte, dos economistas não ortodoxos e marxistas.
Esta crise tem a cara de Minsky e não de Keynes, tem a cara de Fisher, tem a cara de Marshall. É uma crise financeira!
Leiam por favor Minsky, Leijonhufvud, e por que não Blanchard.
Quanto ao mestre Delfim prefiro manter o respeito por quem já contribuiu muito para a formação dos economistas no Brasil, talvez mais do que para a economia brasileira.
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Joaquim,
Voce está dizendo que uma crise financeira da magnitude que estamos vivendo não vai gerar uma queda gigantesca de demanda efetiva? Os efeitos reais da crise financeira nos EUA devem-se ao fato de que as famílias norte-americanas estão aumentando a sua propensão a poupar numa tentativa, a meu ver self-defeating, de pagar as dívidas que contrairam na fase de prosperidade.
Não existe incompatibilidade entre Minsky e Keynes. Minsky parte do princípio da demanda efetiva e da teoria keynesiana do investimento, acrescentando a estrutura de financiamento do investimento e “dinamizando” o modelo estático da Teoria Geral
Saudações,
Oreiro
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“Esta crise tem a cara de Minsky e não de Keynes, tem a cara de Fisher, tem a cara de Marshall. É uma crise financeira!
Leiam por favor Minsky, Leijonhufvud, e por que não Blanchard.”
Afirmacoes confusas, contraditorias e de quem nao entendeu nada e procura slogan.
Essa crise nao tem muito a ver com Minsky (tem a ver mas nao no sentido literal) e mais a ver com Keynes e ainda mais com Marx.
Muita quase moeda parou de ser moeda, muito capital ficticio perdeu valor e a crise virou de solvencia.
Os endividados estao sem dinheiro pra comprar e as institucoes financeiras quebradas.
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