Crise mundial
Reuters
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“banda cambial”, mas estratégia não resistiu e teve de ser abandonada” /> Nos anos 90, valor do dólar oscilava dentro de uma “banda cambial”, mas estratégia não resistiu e teve de ser abandonada
dólar
Fiep sugere piso cambial para proteger a indústria
Para economistas ouvidos pela Gazeta do Povo, fixar um valor mínimo para o dólar aumentaria a dívida do país e o deixaria sujeito a ataques especulativos
Publicado em 27/09/2011 | Fernando Jasper
BC agiu precipitadamente ao cortar taxa de juros, diz keynesiano (Jornal Floripa, 27/09/2011)
28 quarta-feira set 2011
Publicado em Opinião
O diretor da AKB (Associação Keynesiana Brasileira) José Luis da Costa Oreiro disse nesta segunda-feira (26) que o Banco Central agiu precipitadamente ao cortar a taxa de juros no dia 31 de agosto, de 12,5% para 12%.
Na sua opinião, o BC supervalorizou o discurso do Ministério da Fazenda de que aumentaria o superavit primário do governo brasileiro, reduzindo o crescimento dos gastos públicos.
Os keynesianos tradicionalmente defendem cortes de juros. Segundo Oreiro, no entanto, não havia condições macroeconômicas no momento para reduzir a taxa. Além de dizer que política fiscal continua expansionista, ele destacou que o forte aumento do salário mínimo nos últimos anos é outro fator que vem pressionando a inflação.
A política expansionista tende a aumentar a despesa pública (o que contraria o esforço fiscal anunciado pelo governo), para aumentar os estímulos à economia, como produção, consumo e redução de desemprego. Essas ações colocam dinheiro público no mercado para fazer a economia girar.
O diretor da AKB defendeu que primeiro seria preciso mudar esses dois fatores para que, então, fosse possível reduzir a taxa de juros.
Em evento da FGV em São Paulo, ele lembrou que já está previsto um aumento de cerca de 14% do piso dos salário no Brasil em 2012, e observou que demandas políticas geram pressão por mais gastos, dificultando a contenção das despesas do governo.
O diretor da AKB disse que a inflação pode ficar perto de 7% neste ano, patamar considerado por ele como alto e arriscado.
De acordo com Oreiro, nos últimos anos a valorização do real serviu para segurar a inflação, mas a taxa de câmbio chegou a um patamar insustentável para a indústria, que começou a pressionar o governo a agir para conter a queda do dólar.
“A política fiscal expansionista cria uma dilema entre controlar a inflação ou manter o câmbio menos valorizado. O governo optou pela primeira opção desde 2006, mas agora parece que mudou”, disse.
Na FGV, câmbio ‘ideal’ para o mercado local ganha defesa (Valor Econômico, 27/09/2011)
28 quarta-feira set 2011
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O Brasil precisa perseguir uma taxa de câmbio que dê competitividade à indústria nacional para concorrer com os bens importados no mercado doméstico, evitando a desindustrialização em curso da economia brasileira. Essa taxa, contudo, não pode ser tão apreciada a ponto de tornar o país uma plataforma de exportações de manufaturados capaz de competir em outros mercados com os países asiáticos, China principalmente.
Essa alternativa não está mais a disposição do Brasil, que precisaria pagar um custo interno muito elevado – em termos de inflação e de perda de poder de compra da população – com essa escolha. Embora não consensual, essa percepção do modelo de crescimento que o Brasil deve perseguir foi predominante ontem entre os participantes do 8º Forum de Economia da Fundação Getulio Vargas, coordenado pela Escola de Economia de São Paulo da FGV.
O principal tema do painel de abertura do evento foi justamente em torno da existência de um “regime de política econômica voltado para o crescimento sustentado”. Para os participantes, os primeiros nove meses de governo da presidente Dilma Rousseff trouxeram sinais de mudança. Para alguns, elas (as mudanças) vieram na direção correta de abrir espaço para uma taxa de juros menor e também algum controle de capitais, que permita ajustar a volatilidade da taxa de câmbio e inibir movimentos especulativos nesse mercado. Para outros, a presidente reforçou a política fiscal expansionista que marcou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e admitiu mais inflação do que deveria.
Entre os que defenderam um modelo econômico sedimentado no mercado interno estão os professores Yoshiaki Nakano, diretor da Escola de Economia de São Paulo da FGV, e Ricardo Carneiro, da Unicamp, e o empresário Benjamin Steinbruch, vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
“A economia brasileira vai ser comandada pelas expectativas de consumo interno, não vejo como o crescimento possa ser comandado pela exportações”, disse Nakano. “Se o valor for conflitante, devemos olhar um câmbio que mantenha nosso mercado interno e sacrificar as exportações [de manufaturados]“, disse Steinbruch. “Pela primeira vez temos um mercado interno forte e podemos crescer com isso”, acrescentou.
Carneiro, da Unicamp, trouxe um dado para o debate que, na sua avaliação, indica o custo que o país deveria pagar para se tornar uma potência exportadora – o salário hoje vigente na China corresponde a um custo de US$ 1,55 a hora. No Brasil, com câmbio a R$ 1,70, o salário/hora é de US$ 4,86. Para equilibrar o custo salarial do Brasil ao chinês seria necessário uma taxa de câmbio de R$ 5 a R$ 5,50 por dólar.
O tamanho da taxa de câmbio “boa” para manter o mercado interno aquecido, mas mais abastecido por produtos “made in Brazil” e menos pelos importados não é consenso. Para o professor Luiz Carlos Bresser-Pereira, o “teto” da taxa deveria ser R$ 2,20 a R$ 2,30. Nakano acho que a indústria hoje convive com outro câmbio e talvez nem o R$ 1,90, no qual a taxa rondou na semana passada, seja necessário, mas ele não crava um valor. Steinbruch também é vago: “Nem R$ 1,50, nem R$ 2,50″, disse no evento. Depois, para a imprensa, relatou que “R$ 2 é ótimo para o exportador”, mas esse patamar “tem um lado bom, e um lado ruim”. De qualquer forma, disse, “uma puxada brusca como a da semana passada é sempre ruim”.
Junto com o relativo consenso em torno de uma nova taxa de câmbio, mais competitiva, os presentes também concordaram que a correção dessa variável depende do eterno companheiro – a taxa básica de juros.
Fernando Holanda Barbosa, da FGV, ponderou que o Banco Central ganhou novas funções durante os nove meses do comando de Alexandre Tombini. “Não mudou o regime, mas mudou a função de reação do Banco Central”, disse ele, referindo-se à maior preocupação com o crescimento.
Para o ex-ministro Antonio Delfim Netto, o governo de Dilma trouxe algumas mudanças, e uma delas é uma ênfase maior no crescimento. Nesse momento, de forte crise mundial, diz, é uma percepção correta. Mas, além disso, ele também identifica uma melhor coordenação entre as políticas monetária e fiscal e a busca de um modelo que incentive a competição interna com maior proteção externa.
Se o presidente do BC recebeu elogios do presidente da CSN pela “coragem” de baixar juros, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi contemplado com outra boa avaliação. “”Esse governo não toma medidas bruscas, fortes, violentas, mas ele [o ministro Mantega] definiu uma direção e tem clareza dos problemas”, disse Nakano. Em seguida, ressaltou que o Brasil, ainda que continue com uma das mais altas taxas de juros, já aprendeu “que precisa fazer um controle de capitais de algum modo”.
O professor José Luis Oreiro, da Universidade de Brasília, é bem menos otimista em relação à condução atual da política econômica. Ele classificou o atual modelo como “desenvolvimentismo inconsistente”. Para ele, a atual política econômica busca equilibrar objetivos incompatíveis, entre eles a obtenção simultânea da estabilidade da taxa real de câmbio e da estabilidade da taxa de inflação.
Nota Técnica encaminhada a Presidência da FIEP sobre a alta recente do dólar
26 segunda-feira set 2011
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Matéria sobre desindustrialização na revista do IBEF
26 segunda-feira set 2011
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Lehman foi apenas o estopim (Correio Braziliense, 15/09/2011)
19 segunda-feira set 2011
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Lehman foi apenas o estopim
| Autor(es): » Sílvio Ribas » Victor Martins |
| Correio Braziliense – 15/09/2011 |
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Três anos após a quebra do banco dos EUA, a economia global segue amedrontada pelo sistema financeiro e por gastos sem controle A crescente incerteza sobre a economia global não é só um repique da crise financeira de 2008 e 2009. Analistas acreditam que a origem da atual estagnação dos países desenvolvidos, combinada com graves problemas fiscais, vem de longe — há exatos 10 anos, no fatídico 11 de setembro de 2001. A perda de confiança no sistema financeiro, que abusou de soluções “criativas”, e o descontrole dos gastos federais de grandes economias são prova disso. Ao se completar hoje o terceiro aniversário da quebra do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, marco do começo da maior crise do capitalismo desde 1929, a percepção geral é que desequilíbrios econômicos advindos do ataque às torres gêmeas de Nova York jamais foram sanados. Os economistas explicam que os alívios temporários ao longo de uma década de dificuldades, sobretudo nos Estados Unidos, acabaram gerando outros problemas, como a bolha imobiliária norte-americana, tida inicialmente como resultado da regulação frouxa dos mercados. Agora, enquanto a fragilidade das finanças globais, particularmente da Europa, fica cada vez mais evidente, também se esgota a capacidade de intervenção do setor público. “O resultado desse processo é a possibilidade de assistirmos a uma década perdida nos polos mais desenvolvidos”, comentou o economista José Luiz Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB). O professor até acha ser possível uma correção de rumos, mas lamenta que o impasse político na União Europeia (UE) e nos EUA esteja deixando “a solução cada vez mais distante e mais cara”. Pior, está esgotando espaços de negociação. Para ele, o agravamento da crise deverá levar a mudanças de governos e, assim, de políticas econômicas. “A única chance seria mirar a consolidação fiscal em seis anos e expandir já a política fiscal. No atual contexto recessivo, é impossível falar em corte de gastos nos países ricos”, explicou. Embrião de bolhas Dados da consultoria mostram que a participação dos EUA no PIB mundial encolheu desde então. De 2001 a 2009 passou de 23% para 19,8%. A retração se disseminou por outros segmentos. No comércio global, o país recuou de 16% de participação há 10 anos para 11%. “Após o 11 de setembro, ocorreu uma série de desregramentos no governo Bush que, na verdade, tornaram-se o embrião para as bolhas imobiliárias”, explicou Martello. Ele lembra que, de 2002 a 2007, os EUA tiveram forte expansão, ou “a grande moderação”, nas palavras dos especialistas. A quebra do Lehman Brothers foi emblemática porque o banco estava mais exposto às hipotecas. Como era grande, causou efeito cascata por todo os sistema financeiro, quebrando outras instituições grandes. “Até hoje, pelo menos um banco quebra todos os dias nos EUA, mas eles são pequenos, regionais e de baixo risco para o sistema geral”, argumentou o analista da Tendências. Para Oreiro, o maior gargalo norte-americano está na tributação, que nas últimas décadas pesou menos para faixas elevadas de renda. “Se os EUA voltassem à carga tributária de 1980, haveria superavit. Nem a explosão das despesas com a máquina de guerra pós-2001 tiveram tamanha importância”, disse. |
Entrevista para o Jornal “O Globo” (14/09/2011)
15 quinta-feira set 2011
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É um momento trágico no Ocidente
| Autor(es): agência o globo: |
| O Globo – 14/09/2011 |
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O que acha da proposta de os Brics ajudarem a Europa? JOSÉ LUIS OREIRO: O ministro Mantega está jogando para a plateia. Não cabe a Brasil, Rússia, China e Índia resolverem um problema que é exclusivamente dos europeus. Existe solução para a crise do euro? OREIRO: A Europa precisa de demanda externa e os chineses, especialmente, não estão nem um pouco interessados em reduzir seu saldo comercial, importando mais produtos da Europa. Outro remédio seria estimular a demanda doméstica. E, neste caso, os Brics não têm a menor condição de ajudar. Com o problema chegando à Itália, o que muda no perfil da crise? OREIRO: Estamos chegando perto de um momento trágico na história do Ocidente. Ninguém sabe exatamente qual será o impacto da saída da Grécia e agora a crise chegou à Itália. O problema é que falta liderança política para gerenciar esta crise. Nem Angela Merkel (Alemanha) nem Nicolas Sarkozy (França) são lideranças à altura. O senhor acha que o Banco Central Europeu (BCE) tem condições de salvar a Itália? OREIRO: O ideal seria a monetização de parte da dívida dos países da zona do euro (resgate de títulos em troca de dinheiro). Mas, para isso, seria preciso mudar o estatuto do banco. Está cada vez mais difícil de encontrar uma resposta fiscal para a crise. Seria preciso aumentar os gastos e reduzir os impostos, mas isso hoje é impossível. Existe de risco de contágio? OREIRO:Claro que existe. E o pior é que a desconfiança acaba gerando ainda mais turbulência no mercado. |
Link: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/9/14/e-um-momento-tragico-no-ocidente
Emergentes vão socorrer países europeus em crise (O Globo, 14/09/2011)
15 quinta-feira set 2011
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Origem, causas e impacto da crise (Valor Econômico, 13/09/2011)
13 terça-feira set 2011
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Origem, causas e impacto da crise
A crise financeira de 2008 foi a maior da história do capitalismo desde a grande depressão de 1929. Começou nos Estados Unidos após o colapso da bolha especulativa no mercado imobiliário, alimentada pela enorme expansão de crédito bancário e potencializada pelo uso de novos instrumentos financeiros, a crise financeira se espalhou pelo mundo todo em poucos meses. O evento detonador da crise foi a falência do banco de investimento Lehman Brothers no dia 15 de setembro de 2008, após a recusa do Federal Reserve (Fed, banco central americano) em socorrer a instituição. Essa atitude do Fed teve um impacto tremendo sobre o estado de confiança dos mercados financeiros, rompendo a convenção dominante de que a autoridade monetária norte-americana iria socorrer todas as instituições financeiras afetadas pelo estouro da bolha especulativa no mercado imobiliário.
O rompimento dessa convenção produziu pânico entre as instituições financeiras, o que resultou num aumento significativo da sua preferência pela liquidez, principalmente no caso dos bancos comerciais. O aumento da procura pela liquidez detonou um processo de venda de ativos financeiros em larga escala, levando a um processo Minskiano de “deflação de ativos”, com queda súbita e violenta dos preços dos ativos financeiros, e contração do crédito bancário para transações comerciais e industriais. A “evaporação do crédito” resultou numa rápida e profunda queda da produção industrial e do comércio internacional em todo o mundo.
Com efeito, no último trimestre de 2008 a produção industrial dos países desenvolvidos experimentou uma redução bastante significativa, apresentando, em alguns casos, uma queda de mais de 10 pontos base com respeito ao último trimestre de 2007. Mesmo os países em desenvolvimento, que não possuíam problemas como seus sistemas financeiros, como o Brasil, também constataram uma fortíssima queda na produção industrial e no Produto Interno Bruto (PIB). De fato, no caso brasileiro, a produção industrial caiu quase 30% no último trimestre de 2008 e o PIB apresentou uma contração anualizada de 14% durante esse período.
As bolhas e a fragilidade financeira nasceram do capitalismo neoliberal adotado a partir dos anos 70.
Os governos dos países desenvolvidos responderam a essa crise por meio do uso de políticas fiscal e monetária expansionistas. O Fed reduziu a taxa de juros de curto prazo para 0% e aumentou o seu balanço em cerca de 300% para proporcionar liquidez para os mercados financeiros nos EUA. Políticas similares foram adotadas pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo Banco do Japão. Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama conseguiu aprovar uma expansão fiscal de quase US$ 800 bilhões para estimular a demanda agregada. Na área do euro, os governos foram liberados das amarras fiscais do Tratado de Maastricht, sendo autorizados a aumentar os déficits fiscais além dos limites impostos pelo Tratado em consideração. Esforços similares foram realizados no Reino Unido e nos países em desenvolvimento.
Na China, por exemplo, o governo aumentou o investimento público – fundamentalmente em infraestrutura – em mais de US$ 500 bilhões com o intuito de manter uma elevada taxa de crescimento econômico. No Brasil, a expansão fiscal começou antes da expansão monetária devido a um “comprometimento irracional” do Banco Central (BC) com um regime de metas de inflação muito rígido. Nesse contexto, o governo Lula aprovou um pacote de estímulo fiscal no fim de 2008, constituído de aumento do investimento público, redução de impostos e aumento do salário mínimo e do seguro desemprego. A redução da taxa de juros começou apenas em janeiro de 2009, após o colapso da produção industrial e da disseminação de rumores quanto a possível demissão do presidente do BC. Como resultado da demora no relaxamento na política monetária, o PIB declinou 0,7% em 2009.
Apesar da forte queda da produção industrial e do PIB tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, a severidade da crise de 2008 ficou muito aquém dos resultados catastróficos verificados na década de 1930. No fim de 2009, a economia americana começou a apresentar sinais positivos de recuperação, apontando para um crescimento modesto em 2010. França e Alemanha saíram da recessão técnica em meados de 2009, o mesmo ocorrendo com o Reino Unido no último trimestre desse ano.
Os países em desenvolvimento tiveram um desempenho econômico muito superior ao dos países desenvolvidos durante a crise. O crescimento econômico da China foi de 8,5% em 2009, mostrando uma pequena redução com respeito a 2008, quando a economia cresceu 9%. A performance econômica da Índia também foi boa. Após uma expansão de 7,3% do PIB em 2008, o crescimento foi reduzido para 5,4% em 2009. A performance econômica do Brasil durante a crise não foi tão boa como a da China e da Índia. Após um crescimento robusto de 5,1% em 2008, o PIB caiu 0,7% em 2009. Em 2010, contudo, a economia brasileira apresentou uma forte recuperação, apresentando um crescimento econômico superior a 7%. Entre os Brics, apenas a Rússia apresentou uma queda forte do nível de atividade econômica.
O regime de crescimento “wage-led” foi substituído por um “finance-led”.
Com efeito, o PIB da Rússia caiu 7,5% em 2009, após um crescimento de 5,6% em 2008.
A intensidade da crise financeira de 2008 coloca duas questões fundamentais para os economistas e formuladores de política econômica. A primeira questão se refere às origens da crise. A segunda se refere às consequências dessa crise para a economia mundial. Sobre essas questões se formou uma “sabedoria convencional”, a qual será detalhada na sequência, mas que apresenta respostas essencialmente incorretas para as mesmas.
No que se refere à primeira questão a “sabedoria convencional” afirma que a crise financeira de 2008 foi apenas o resultado de uma regulação financeira inadequada, combinada com uma política monetária muito frouxa conduzida pelo Fed durante a administração Greenspan. Se assim for, então não será necessária a implementação de políticas que revertam a tendência ao aumento da desigualdade na distribuição de renda nos países desenvolvidos, verificada nos últimos 30 anos. Uma mudança limitada na regulação financeira e a redefinição do regime de metas de inflação de maneira a incluir a estabilização dos preços dos ativos financeiros como um dos objetivos da política monetária, por intermédio de uma espécie de “regra de Taylor ampliada”, seria suficiente para evitar uma nova crise financeira no futuro.
No que se refere à segunda questão, a “sabedoria convencional” estabelece que a crise de 2008 foi apenas um desvio temporário no curso normal de eventos (um momento Minsky), de tal forma que, no futuro próximo, as economias capitalistas irão retomar a trajetória de crescimento observada antes da crise. O crescimento mundial poderá ser novamente puxado pela expansão de crédito nos Estados Unidos e a política econômica poderá voltar a ser conduzida com base no assim denominado “novo consenso macroeconômico”, o qual estabelece que o objetivo fundamental, se não o único, da política macroeconômica é a estabilidade da taxa de inflação.
A crise financeira de 2008 não foi apenas o resultado da combinação perversa entre desregulação financeira e política monetária frouxa. Essas são apenas as causas próximas da crise. Mas existe uma causa mais fundamental, qual seja: o padrão de capitalismo adotado nos Estados Unidos e na Europa a partir do final da década de 1970, o qual pode ser chamado de “capitalismo neoliberal”. Entre 1950 e 1973, as economias capitalistas avançadas vivenciaram uma “época de ouro” de crescimento econômico, no qual a distribuição pessoal e funcional da renda era progressivamente mais equitativa, a taxa de acumulação de capital era mantida em patamares elevados devido à existência de um ambiente macroeconômico estável (inflação baixa, juros baixos, taxas de câmbio estáveis) e forte expansão da demanda agregada. Além disso, a taxa de desemprego era inferior a 4% da força de trabalho em quase todos os países desenvolvidos (exceto, curiosamente, nos Estados Unidos). Durante esse período, os mercados financeiros eram pesadamente regulados, a movimentação de capitais entre as fronteiras nacionais era bastante restrita, as taxas de câmbio eram fixas com respeito ao dólar americano e os salários reais cresciam aproximadamente ao mesmo ritmo da produtividade do trabalho.
A combinação entre estabilidade macroeconômica, crescimento acelerado e baixo desemprego permitia que os governos dos países desenvolvidos operassem com baixos déficits fiscais e uma dívida pública reduzida como proporção do PIB. O “Estado do Bem-Estar Social” não representava um fardo para as contas públicas.
Esse “capitalismo socialmente regulado” apresentava um regime de crescimento do tipo “wage-led”, ou seja, um regime no qual o crescimento dos salários reais (num ritmo igual à produtividade do trabalho) permitia uma forte expansão da demanda de consumo, a qual induzia as firmas a realizar um volume elevado de investimentos na ampliação de capacidade produtiva, ao mesmo tempo em que mantinha as pressões inflacionárias relativamente contidas devido à estabilidade do custo unitário do trabalho.
Com o colapso do Sistema de Bretton Woods e os choques do petróleo em 1973 e 1979, o ambiente macroeconômico muda radicalmente e o mundo desenvolvido passa a conviver com o fenômeno da “estagflação”. Esse ambiente macroeconômico permitiu o ressurgimento daquelas doutrinas liberais.
Após a eleição de Margareth Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos, as políticas econômicas nos países desenvolvidos foram progressivamente pautadas pelos motes da desregulação, privatização e redução de impostos. Os mercados financeiros foram liberalizados, os controles de capitais foram abolidos nos países desenvolvidos e os impostos foram reduzidos, principalmente sobre os mais ricos. Os sindicatos de trabalhadores foram deliberadamente enfraquecidos pelas políticas adotadas por Reagan e Thatcher, registrando-se uma forte redução da filiação sindical da força de trabalho.
O resultado macroeconômico desse novo “padrão de capitalismo” foi uma crescente desigualdade na distribuição funcional e pessoal da renda, a medida que os salários passaram a crescer num ritmo bem inferior ao da produtividade do trabalho e o sistema tributário perdeu, em vários países, o seu caráter progressivo. O aumento da concentração de renda e o crescimento anêmico dos salários reais foi o responsável pela perda do dinamismo endógeno dos gastos de consumo, notadamente nos Estados Unidos, os quais passaram a depender cada vez mais do aumento do endividamento das famílias para a sua sustentação a médio e longo prazo.
Nesse contexto, a desregulação dos mercados financeiros tornou-se funcional, uma vez que a mesma permitiu um aumento considerável da elasticidade da oferta de crédito bancário, viabilizando assim o crescimento do endividamento das famílias, necessário para a sustentação da expansão dos gastos de consumo. O aumento extraordinário do crédito bancário resultou num processo cumulativo de aumento dos preços dos ativos reais e financeiros, permitindo assim a sustentação de posturas financeiras cada vez mais frágeis (especulativa e Ponzi) por parte das famílias, empresas e bancos.
O regime de crescimento “wage-led” fora substituído por um regime “finance-led”. Daqui se segue que no “capitalismo neoliberal” as bolhas e a fragilidade financeira não são “anomalias” no sistema, mas parte integrante do seu modus operandi.
No que se refere à tese de que a crise de 2008 seria apenas um desvio temporário da trajetória de crescimento de longo prazo das economias capitalistas, os eventos ocorridos depois de 2009 parecem apontar claramente para a falsidade dessa conjectura.
Com efeito, a crise de 2008 não foi apenas um “curto circuito” na máquina capitalista, o qual poderia ser corrigido por intermédio da intervenção do Estado no “mecanismo de ignição” das economias capitalistas. Isso porque o regime de crescimento do tipo “finance-led” teve como contrapartida uma elevação significativa do endividamento do setor privado nos anos anteriores a crise de 2008.
Considerando apenas os países da área do euro, constatamos que entre 1997 e 2008, a dívida das empresas não financeiras passou de 250% para 280% do PIB, o endividamento dos bancos aumentou de 190% para 250% do PIB e o endividamento das famílias aumentou em quase 50%.
Após o colapso do Lehman Brothers o setor privado nos países desenvolvidos iniciou um processo de “deflação de dívidas”, no qual a “propensão a poupar” dos agentes privados é aumentada com o intuito de permitir uma redução do estoque de endividamento. Esse aumento da propensão a poupar do setor privado atuou no sentido de anular (parcialmente) o efeito sobre a produção e o emprego do aumento dos déficits fiscais.
O resultado combinado do aumento da propensão a poupar do setor privado e redução da poupança do setor público foi uma pequena recuperação do nível de atividade econômica e uma “socialização na prática” de parcela considerável da dívida privada, transferida agora para o setor público. Essa “socialização das dívidas privadas” é uma das causas da crise fiscal da área do Euro, a qual, na ausência de uma monetização parcial do endividamento do setor público dos países por ela afetados, irá resultar em vários anos de contração fiscal, retardando assim a recuperação econômica do mundo desenvolvido. A perspectiva para os países da área do Euro (e em menor medida para os Estados Unidos) é de vários anos de estagnação econômica.
Em suma, a crise financeira de 2008 foi o resultado do modus operandi do “capitalismo neoliberal” implantado no final da década de 1970 e os seus efeitos sobre o nível de produção e de emprego nos países desenvolvidos serão duradouros devido ao elevado endividamento do setor privado, gerado por um regime de crescimento do tipo “finance-led”.
José Luís Oreiro
Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília, diretor da Associação Keynesiana Brasileira e co-editor do livro “The financial crisis: origins and implications”, Palgrave Macmillan, 2011. E-mail: joreiro@unb.br.
Este é o segundo de uma série de artigos feitos por renomados economistas brasileiros e estrangeiros convidados pelo Valor para discutir a crise financeira internacional e avaliar seus possíveis desdobramentos.
ANPEC 2011
11 domingo set 2011
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Caros leitores,
É com grande satisfação que comunico que tive cinco artigos aceitos para o XXXIX Encontro Nacional de Economia. Foram três artigos na área de macroeconomia, um na área de crescimento e desenvolvimento econômico e outro na área de economia industrial. Os artigos selecionados para o encontro podem ser visualizados em http://www.anpec.org.br/downloads/Encontro2011_artigosselecionadosporarea.pdf.
Abraços a todos
Oreiro
