“Nos, que valemos tanto como Vos, prestamos juramento a Vos, que no valéis más que nos, y os aceptamos como soberano, siempre que Vos respetéis nuestras leyes y nuestras libertades” (Juramento dos vassalos do Rei de Aragão em sua investidura).
“España Democrática, Este es el grito de mi alegria que vuela”

20 de novembro de 1975. Francisco Franco Bahamonde, o homem que havia governado a Espanha com punho de aço por quase 40 anos, está morto depois de longa e penosa enfermidade. Seu sucessor não será alguem ligado às Forças Armadas ou a Falange Espanhola, a versão local do partido fascista italiano, mas sim um legitimo representante da velha dinastia de Bourbon. Franco escolhera para seu sucessor o neto de Alfonso XIII, último rei da Espanha antes da proclamação da Segunda República em 1931. Seu nome Juan Carlos de Borbon y Borbon. Com a sua proclamação como “Sucessor a título de Rey” pelas Costes Espanholas no dia 22 de novembro de 1975, a Espanha volta a ser uma Monarquia. Com a restauração Monárquica tem início do processo de democratização da Espanha.
Foi um longo caminho até a Restauração Monárquica. Durante o Reinado de Alfonso XIII a Espanha perdera o que restava do seu outrora grandioso Império na desastrada Guerra Hispano-Americana (1898). Com a perda de Cuba e das Filipinas desfaziam-se definitivamente as aparências de Grande Potência. Apesar da neutralidade da Espanha durante a Primeira Guerra Mundial, o que proporcionou ao país um período de relativa prosperidade econômica, a década de 1920 mostrou-se altamente conturbada devido a Guerra do Morrocos, na qual a revolta da população local contra o domínio Espanhol ameaçava as ultimas possessões do Império Colonial Espanhol (Ver figura abaixo).
Nesse contexto, a Espanha sofreu numerosas revoltas sociais nas suas principais cidades, que levaram ao capitan general da Catalunha, Miguel Primo de Rivera, organizar um golpe de estado no dia 13 de setembro de 1923, no que foi protegido por Alfonso XIII, que o encarregou de formar um novo governo, apesar de ter sido dissolvido o parlamento e suspensa a Constituição. Ele formou um governo, ao qual chamou directório, que numa primeira fase era constituído exclusivamente por militares (directório militar), mas que posteriormente teve um carácter civil (directório civil).

Em 1929, com a crescente oposição popular ao ditador, com especial participação de estudantes, intelectuais e do corpo de artilharia fizeram com que Afonso XIII demitisse Primo de Rivera do governo a 29 de janeiro de 1930 nomeando o general Dámaso Berenguer como presidente do conselho de ministros, com a intenção de retornar ao regime constitucional.
No entanto, com a queda do ditador, aumentaram as manifestações antimonárquicas, em que se acusava o monarca de proteger a ditadura de Primo de Rivera e de ter responsabilidade no Desastre de Annual, quando a Espanha tinha perdido o controlo de Melilla. Então, os partidos republicanos uniram-se contra a monarquia, assinando o Pacto de San Sebastián, e tentaram levantamentos militares que foram frustrados pelo governo em Madrid e em Jaca (este último encabeçado por Fermín Galán e Ángel García Hernández que foram fuzilados depois de serem julgados em Conselho de Guerra). Em fevereiro de 1931, o almirante Juan Bastista Aznar foi designado presidente do conselho por Alfonso XIII e convocou eleições municipais para 12 de abril de 1931. Embora os monarquistas tivessem sido vitoriosos, os republicanos conquistaram a maioria nas grandes cidades. Prevendo uma guerra civil, o rei abandonou o país nesse mesmo dia, renunciando à chefia do Estado, mas sem abdicar formalmente. Mais especificamente, Alfonso XIII suspende o exercício do poder real, mecanismo jurídico pelo qual não só ele conservava todos os direitos dinásticos para si e seus descendentes, mas mantinha a Espanha legalmente como uma Monarquia. No dia 14 de abril foi proclamada a Segunda República Espanhola.
Novas eleições acontecem em Dezembro de 1931, nas quais a esquerda sai vitoriosa. Alcalá Zamora é eleito presidente da República e encarrega Manuel Azaña de organizar um governo. O governo da República não consegue avançar na resolução da questão das autonomias regionais, nem no encaminhamento das questões agrária e trabalhista. Na questão religiosa, o governo Azaña cedeu moderadamente ao espírito anticlerical que predominava no parlamento, através da dissolução da Companhia de Jesus na Espanha, ficando preservadas as demais ordens religiosas, que no entanto foram proibidas de dedicar-se ao ensino. Comprimido, por um lado, pela direita e a Igraja - que viam a laicização do Estado e da educação de maneira muito negativa – e, por outro, a esquerda e os anarquistas – os quais consideravam as mesmas reformas insignificantes – o governo Azaña é incapaz de agradar a população.
Como economia predominantemente agrário exportadora, a Espanha havia sido pouco atingida pela crise de 1929: o desemprego era pequeno e o salário médio por dia trabalhado havia aumentado significativamente nos primeiros anos da Segunda República. Este aquecimento da economia aguçava as tensões sociais já existentes e, com elas, a aguda divisão político-ideológica da sociedade, que já vinha do século anterior.
Em maio de 1931, os anarquistas incendiaram a Igreja dos Jesuítas na Calle de la Flor, no centro de Madrid. Em agosto de 1932, o general monarquista Sanjurjo tenta dar um golpe, mas fracassa. Condenado à morte, é depois indultado e continua a conspirar na prisão.
Em 1933, a recusa dos anarquistas em dar apoio aos partidos de esquerda e a sua propaganda pela “greve do voto” permitem a vitória eleitoral da direita, representada pela Confederação Espanhola das Direitas Autônomas (CEDA) de José Marai Gil Robles. Segue-se uma insurreição da esquerda, que foi mal sucedida em toda a Espanha – menos nas Astúrias, onde os operários dominaram Gijón por 13 dias. Este evento ficou conhecido como Comuna das Astúrias.
Com milhares de militantes feitos prisioneiros, os anarquistas decidem apoiar a esquerda nas eleições de 1936. Espera-se que o novo governo lhes conceda anistia. A esquerda vence em 16 de Fevereiro, com 4.645.116 votos, contra 4.503.524 da direita e 500 mil votos do centro, mas as particularidades do sistema eleitoral – que favorecia as maiorias – dão à esquerda a maioria das cadeiras no parlamento.
Alcalá Zamora encarrega Azaña de formar um governo. Em maio de 1936, Alcalá Zamora é destituído e Azaña assume a Presidência da República, tendo como seu primeiro-ministro o socialista Largo Caballero. A direita então lança-se a preparar um golpe militar que se concretiza em 18 de Julho.
O Golpe que se esperava rápido, fracassa e o país mergulha numa longa Guerra Civil, durante a qual morrem cerca de 1 milhão de pessoas. A Guerra Civil termina formalmente no dia primeiro de março de 1939.
O regime de Francisco Franco tinha chegado ao poder durante a Guerra Civil Espanhola, que tinha corroído republicanos, anarquistas, socialistas, comunistas e apoiado pelos soviéticos e por Stálin. O regime de Franco teva apoio de conservadores, monárquicos, nacionalistas e fascistas. Esta grupo foi bem sucedido devido ao apoio de Portugal e das grandes potências do Eixo, Itália e Alemanha. Apesar da sua aliança com monárquicos e sua declarada fascinação pela Monarquia, Franco não estava ansioso por restaurar a monarquia deposta. Uma vez no poder, Franco preferiu estar à cabeça com um regime próprio como Chefe de Estado durante a sua vida. Apesar dos apoiantes partidários de Franco geralmente aceitarem este regime, muito rapidamente iniciaram um debate sobre quem iria substituir Franco quando ele morresse. As facções monárquicas exigiram a devolução de uma monarquia absoluta de linha dura, e eventualmente Franco concordou que o seu sucessor seria um monarca.
O herdeiro ao trono de Espanha era Juan de Borbón (Conde de Barcelona), o filho do Rei Alfonso XIII. No entanto, Franco via-o com extrema desconfiança, principalmente após saber que o mesmo tinha conspirado com os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido a invasão da Espanha pelas tropas aliadas durante a Segunda Guerra Mundial (Ansón, 1994, cap. XVI). Franco chegou a considerar a hipótese de dar o trono para o primo Juan Carlos Afonso, Duque de Anjou e de Cádiz. Afonso tinha casado com uma neta de Franco em 1972 e era conhecido por ser um fervoroso franquista.
No entanto, Franco ao final decidiu escolher como sucessor o príncipe Juan Carlos, o qual havia criado como seu filho desde 1948, quando o jovem príncipe deixa o exílio em Portugal, onde morava com a família Real, e vai para a Espanha. Franco esperava que o jovem príncipe poderia ser preparado para assumir a nação, continuando a manter a natureza ultra-conservadora do seu regime. Em 1969, Juan Carlos foi oficialmente designado herdeiro e foi dado o novo título de Príncipe de Espanha, ao invés do tradicional de Príncipe de Asturias. Para ser nomeado como “Sucessor a Título de Rey” teve que jurar fidelidade a Franco e ao Movimiento Nacional, o que fez com certa exitação.
Juan Carlos reuniu-se com Franco e consultou-o muitas vezes ao mesmo tempo que realizava funções oficiais e cerimoniais de Estado, a par do ditador, o que provocava a ira dos republicanos moderados e mais liberais. Durante esses anos, Juan Carlos apoiou publicamente o regime. No entanto, à medida que os anos progrediam, Juan Carlos começou a reunir-se com líderes da oposição política e exilados, que foram lutar para levar a reforma liberal do país. Ele também teve conversas secretas com o seu pai pelo telefone. Franco, por seu lado, desconhecia as ações do príncipe e negou as alegações de que Juan Carlos foi, de qualquer forma, desleal à sua visão do regime.
Durante os períodos em que Franco esteve incapaz, temporariamente, em 1974 e 1975, Juan Carlos foi agindo como Chefe de Estado. Perto da morte, em 30 de Outubro de 1975, Franco deu o controle total a Juan Carlos. Segundo o próprio Juan Carlos, no leito de morte, Franco teria feito um único pedido ao seu sucessor: manter, acima de qualquer outra consideração, a unidade da Espanha (Cf. Vilallonga, 1994). Em 22 de Novembro, após o falecimento de Franco, as Cortes Espanholas proclamaram Juan Carlos como Rei da Espanha (veja vídeo http://www.youtube.com/watch?v=cDMHLUmTphM). A partir desse dia tem início o processo de redemocratização do país …
Felizmente, a fascinação do General Franco pela Monarquia levou ao trono a Juan Carlos de Borbón. Um Rei de verdade, numa Democracia também de verdade. Tudo, agora sim, digno do povo espanhol, Por la Gracía de Dios.
Referências Bibliográficas
Ansón, L.M (1994). Don Juan. Plaza & Janes: Madrid.
Villalonga, J.L. (1993). El Rey: Conversasiones com D. Juan Carlos I de España. Plaza & Janes: Madrid.