Luciano Pires Publicação: 25/09/2010 08:00 Atualização: 25/09/2010 01:58
O bem-sucedido processo de capitalização da Petrobras teve e ainda terá reflexos importantes sobre o comportamento do câmbio. Com o aumento da entrada de moeda estrangeira para reforçar o caixa da estatal de energia, a valorização do real ganhou uma sobrevida que os analistas de mercado ainda não são capazes de quantificar ou de prever quando chegará ao fim. Bom para quem quer viajar para outros países ou importar produtos e máquinas. O dólar barato assombra as contas externas e é alvo de todo tipo de preocupações por parte do governo. A tendência de curto prazo é que a cotação da moeda americana continue na casa do R$ 1,70. Analistas advertem que só um sobressalto internacional pode reverter esse quadro. “Em curto prazo, a tendência é de estabilidade. Em médio prazo, até o fim do ano, a taxa pode chegar a R$ 1,82. O deficit em transações correntes está aumentando bastante e de forma rápida. Isso significa que o financiamento externo será cada vez mais abocanhado para bancar esse deficit. Teremos cada vez menos dólares na economia”, explica Felipe Salto, da consultoria Tendências.
José Luís Oreiro, professor de economia da UnB, fala sobre o câmbio (audio da entrevista em
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/09/25/economia,i=214776/DOLAR+ESTAVEL+ESTIMULA+VIAGEM+AO+EXTERIOR+MAS+PREJUDICA+AS+CONTAS+PUBLICAS.shtml
)
A acomodação em relação ao real, no entanto, dependerá da eficácia e da frequência com que as intervenções do governo acontecerem. Nesta semana, o Ministério da Fazenda anunciou que o Fundo Soberano do Brasil (FSB) poderá fazer aplicações financeiras em moeda estrangeira e até mesmo comprar divisas. Os ingressos no mercado de câmbio serão concretizados via Banco Central. Com o FSB em ação, o governo espera conter a valorização excessiva do real. Limites O total reunido até o momento no fundo é de R$ 17,9 bilhões. Não existem limites para as operações em moeda estrangeira. Salto avalia que as intervenções são adequadas para evitar pressões danosas ao sistema. Segundo ele, mesmo em um contexto de indefinição para a taxa de equilíbrio, não há risco inflacionário. O mercado também parece não enxergar ameaças imediatas. No último boletim Focus — pesquisa semanal feita pelo BC com instituições financeiras — a expectativa de inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) neste ano ficou em 5,01% (a meta oficial é 4,5%). A projeção da taxa de câmbio para o fim do ano passou de R$ 1,77 para R$ 1,75, enquanto que a aposta para 2011 caiu de R$ 1,81 para R$ 1,80.
José Luís Oreiro, professor de economia da UnB, adverte que o movimento do câmbio dependerá de como o governo vai operacionalizar o FSB. “O discurso do governo não dá um sinal muito claro. Por um lado, reconhece-se que o câmbio apreciado é ruim, mas por outro, o governo diz que o regime de flutuação é bom”, reforça. Na opinião do especialista, o perigo está em como as contas externas vão se comportar até que o câmbio se acomode. “Ainda há reservas internacionais confortáveis. O problema é que a experiência brasileira mostra que a gente só conserta depois que explode. Se o governo começar a fazer alguma coisa agora, e um ajuste mais rápido no primeiro semestre de 2011, é possível evitar uma crise no balanço de pagamento. Se não fizer nada, essa crise estará contratada para 2012”, diz. O Banco Central espera um resultado negativo recorde das contas externas de US$ 39 bilhões em 2010. No próximo ano, esse rombo atingirá US$ 60 bilhões
Olá Professor,
A questão que venho colocar tem pouco haver com o tópico, mas é uma inquietação teórica e até certo ponto metodológica. A heterodoxia tem se empenhado em desenvolver modelos dinâmicos (especialmente continuos), no geral modelos pequenos com resultados analiticos voltados para interpretação de possíveis rumos da politica econômica. Guardadas as devidas diferenças em termos de hipóteses (que são realmente importantes) esses modelos em muito se assemelham aos que eram feitos nos anos 70 e 80 pela corrente dominante. Outro dia ouvi de um amigo que, tendo em vista os avanços dos modelos DSGE (que são modelos especialmente grandes), esse tipo de modelagem soava um tanto ultrapassada. De fato é muito pouco provável encontrar em uma revista ortodoxa um modelo dinâmico continuo 2×2 ou 3×3, isso não implica na não validade deles, mas a meu ver suscita reflexão. O que professor pensa a esse respeito? A heterodoxia esta repetindo a ortodoxia dos anos 70/80? Ou a simplicidade deste tipo de modelos tem servido para mostrar idéias interessantes e utéis?
Eduardo,
Eu não acho que a divisão entre ortodoxia e heterodoxia se baseie em “modelos grandes” versus “modelos pequenos”. Nos últimos 10 anos tem-se desenvolvido nas hostes heterodoxas uma extensa literatura sobre modelos dinâmicos stock-and-flow consistent (a esse respeito ver Godley, W; Lavoie, M. 2006. Monetary Economics: An integrated approach to credit, money, income, production and wealth. Palgrave Macmillan, Londres). Tratam-se de modelos construidos a partir de uma Matriz de Contabilidade Social, na qual se especificam não só os fluxos de renda e gasto dos diversos agentes econômicos, como também as relações entre os fluxos de poupança e a acumulação dos diversos tipos de ativos existentes na economia. São modelos grandes por natureza, alguns deles tendo mais de 500 equações, de tal forma que a solução dos mesmos só é possível por intermédio de simulação em computador.
Minha crítica aos modelos DSGE não se refere ao tamanho dos mesmos, mas o manifesto irrealismo dos seus pressupostos. Não se pode levar a sério um modelo que pressupõe a existência de mercados contingentes completos no sentido de Arrow e Debreu onde, por definição, crises financeiras não podem ocorrer. A macroeconomia novo-keynesiana involuiu do ponto de vista teórico-conceitual nos últimos 10 anos com respeito ao modelo Stiglitz-Greenwald que atribuia as imperfeições nos mercados financeiros à causa das flutuações cíclicas do nível de renda e de emprego.