Investimento autônomo, investimento induzido e a FINEP
Um elemento importante na teoria Keynesiana é a distinção entre investimento autônomo e investimento induzido. O investimento induzido se refere aos gastos de investimento que são induzidos pela variação e/ou pelo nível corrente de atividade econômica (vendas, PIB, grau de utilização da capacidade, etc). Grosso modo, o investimento induzido corresponde ao investimento em ampliação da capacidade produtiva existente. Quando ocorre uma aceleração do crescimento econômico, o investimento induzido aumenta pois os empresários procuram ajustar o tamanho da sua capacidade produtiva ao crescimento esperado das vendas. O investimento induzido é, portanto, fortemente pró-ciclico; e deve se reduzir de maneira significativa face a uma retração do nível de atividade.
O investimento autônomo se refere aos gastos de investimento que são, em larga medida, independentes da variação e/ou do nível corrente de atividade econômica. Grosso modo, o investimento autônomo corresponde ao investimento em modernização da capacidade produtiva existente, ou seja, trata-se do investimento que está associado a atividade de inovação tecnológica. Esse tipo de investimento envolve um grau maior de incerteza do que o investimento em ampliação da capacidade, mas não depende tão fortemente da conjuntura econômica como o investimento em ampliação de capacidade. Se o determinante fundamental do investimento em ampliação de capacidade é o crescimento esperado das vendas, o qual depende em larga medida da expansão da demanda agregada, o investimento em modernização tecnológica é determinado pela estratégia concorrencial de cada empresa, ou seja, a maneira pela qual cada empresa procura se situar no mercado em que opera com vistas ao aumento, ou pelo menos a manutenção, de seu market-share.
O investimento em inovação tecnológica é, portanto, menos sensível ao ciclo econômico do que o investimento em ampliação de capacidade. No entanto, devido a maior incerteza inerente a esse tipo de investimento, e as evidentes externalidades poisitivas geradas pelo mesmo (principalmente como fonte de aumento do conteúdo tecnológico de nossa pauta de exportação, o que contribui para aumentar a elasticidade renda das exportações, reduzindo, portanto, a restrição externa ao crescimento), o financiamento do investimento em inovação tecnológica deve ser feito majoritariamente por orgãos públicos a taxas de juros subsidiadas.
No Brasil o financiamento ao investimento em ampliação de capacidade produtiva é atribuição do BNDES, ao passo que o financiamento do investimento em inovação tecnológica é feito pela FINEP. Nos ultimos dias o governo brasileiro, de forma acertada, fez um aporte substancial de recursos ao BNDES com vistas ao financiamento do investimento em ampliação da capacidade. Contudo, a FINEP não recebe aporte de recursos do Governo Federal a cerca de 10 anos. Conforme me confidenciou uma alta funcionária da FINEP, o patrimônio líquido da financiadora de projetos não chega a míseros 500 milhões de reais, o que diminui muito a capacidade da FINEP de financiar projetos de investimento em inovação tecnológica.
Acredito que o Governo Federal dará uma contribuição importante ao crescimento de longo-prazo da economia brasileira se fizer um expressivo aporte de capital a FINEP. Para 2009, um aporte de capital por parte do Tesouro de cerca de 1 bilhão de reais, aumentaria muito a capacidade de concessão de financiamento da FINEP, viabilizando os projetos de investimento em inovação tecnológica da elite da indústria brasileira.
Para aqueles que insistem numa avaliação estática e simplória dos efeitos de uma expansão fiscal baseada em investimento público sobre as contas externas, cabe lembrar que o investimento em inovação tecnológica ajuda a reduzir o problema da restrição externa a médio e longo-prazo pois ao mudar o perfil da pauta exportadora, atua no sentido de aumentar a elasticidade renda da demanda das exportações brasileiras, aumentando assim a taxa de crescimento que é compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos.